3. Os recordes: invenção de novas hierarquias
O desporto moderno nascido em Inglaterra, no fim de séc. XIX, é jogo, competição, formação do indivíduo e tem regras sociais. No século XVIII a crença na razão encontra na competição desportiva um domínio de desenvolvimento do conhecimento, de progresso das ciências e de descoberta da performance humana. O corpo já não se reduz a uma obra da natureza e, como a medicina mostra, há até que contrariar a sua natureza, confiar no poder científico e técnico.
A competição desportiva oferece novas possibilidades na exploração e descoberta de limites humanos desconhecidos que, por sua vez, vão ser descritos por números e entendidos pela matemática. Com a experiência de liberdade, liberdade associada à ciência, nasce a ambição e com ela a questão: e se não há limites para além daqueles que colocamos a nós próprios? Eis que vinga a ideia do "ultrapassar de si". Huizinga (1976) lembra a recomendação de Homero que exprime um ideal válido também no desporto: “ser sempre o melhor ultrapassando os outros”.
O herói desportivo que ao mesmo tempo se aproxima do comum dos mortais e que pela grandeza dos seus feitos dele se afasta, enquadra-se na definição de herói moderno que convida a caracterizar o tipo de intriga apta a levar em conta a “negatividade” apresentada como um valor (cf. Augé, 1993). “Negatividade”, no sentido hegeliano do termo, significa capacidade em afirmar a liberdade humana contra a natureza, resumida pela expressão idiomática “o ultrapassar de si”, que revela a necessidade de ultrapassar os próprios limites, quaisquer que sejam, impostos por uma suposta natureza humana.
O ultrapassar dos limites, como observam Holt & Mangan (1996: 3), é uma componente inerente ao contexto do triunfo do atleta-herói, é uma apoteose, que não é apenas pessoal. Os momentos de celebração dessas vitórias accionam de certo modo a crença “na possibilidade da perfeição, última realização do ideal Renascentista.”[1]
A competição olímpica, enquanto projecto moderno de organização da competição desportiva entre nações, vai construir-se como o campo social que parece mais democrático, i.e., acessível a todos, como se a qualquer um fosse possível aceder ao estatuto de herói: “o homem comum tornado invulgar”[2]. Porém este homem comum tornado invulgar tem uma dose de sobre-humanidade, que Holt & Magan (1996) denominam de génio, na medida em que se impõe pelo “brilho perturbante” de uma acção muitas vezes única.
É este homem comum que, com a sua “bizarria”, se torna num herói olímpico e se afasta do comum dos mortais: em todas as modalidades há atletas cujo “ultrapassar dos limites” lhe dará o excesso biográfico que, de algum modo, tenta dar imortalidade à efemeridade que representou o momento do bater o recorde.
A competição desportiva é também símbolo da actividade desprovida de produto final, tal como toda a actividade laboral já desligada da manufactura e contabilizada pelo relógio de ponto. O tempo é, ele próprio, a medida do seu trabalho. Tempo entendido como um grande valor que justifica um termo próprio – o recorde, o melhor dos tempos, por relação a si e aos outros. O tempo da corrida – efémero e evanescente – depende do modo como são vividas outras temporalidades, o tempo de treino, o tempo ligado com o próprio corpo do atleta (que tem um prazo de validade muito curto, no que respeita ao rendimento na alta competição), e, ao longo do tempo, a tecnologia dará maior rigor à medida e, também, melhores meios para a ultrapassar. Comparar recordes ao longo do tempo é possível mas, paradoxalmente, não deixa de ser anacrónico comparar os tempos realizados nos 10 0000 metros corridos pelo finlandês Paavo Nurmi, em 1920, numa pista de cinza, e pelo seu compatriota Lassen Viren, nos Jogos de Munique de 1972, em pista de tartan com sapatos de ténis concebidos especificamente para esse tipo de prova.
O tempo organiza a serialização, estabelece a hierarquia entre os atletas. E, o recorde vai ser também medido em metros, em kilogramas, em pontos, e este alargar idiomático vai dar novo significado ao próprio recorde, que será então a melhor “marca” de sempre.
3.1. A heroicidade desportiva das mulheres no domínio do “outro”
A heróicidade desportiva abre espaço à negociação, à emancipação e até à contestação social. A entrada das mulheres nas diferentes provas desportivas foi e, no caso de alguns desportos colectivos (cf. Souter, 2000), continua a ser objecto de grande resistência por parte do Comité Olímpico Internacional.
Eriksen lembra que “a maior parte dos heróis nacionais são homens: o facto só por si nada diz mas não deixa de ser um paradoxo na construção da cultura nacional. O Estado-nação é uma instituição que, favorecendo a inclusão tal como a exclusão, procura construir uma «comunidade imaginada»[3], à qual todos os membros da nação se sentem pertencer; e desenha ao mesmo tempo fronteiras muito estritas com todos os que dele não fazem parte. (...) Quando os actos desse «herói generalista» estão ligados ao território de uma nação, vemos aparecer a figura do herói nacional.” (Eriksen, 1998: 149).
Mas que possibilidades (ou impossibilidades) oferece esta construção às heroínas, sejam elas reais ou fictícias?[4] A competição desportiva alargada às mulheres não só vem pôr em causa o modelo geral do heroísmo do século XIX, como vem constituir-se numa ameaça às identidades históricas atribuídas aos papéis até aí desempenhados pelas mulheres: esposa e mãe.
No âmago do projecto de Coubertin, de fazer renascer os Jogos Olímpicos da Antiguidade, está uma proposta de renovação moral da sociedade francesa baseada no exercício físico. Neste sentido, o barão considerava fundamental ultrapassar o corolário segundo o qual a inércia física era indispensável ao desenvolvimento cerebral (cf . Coubertin: 1973). Os Jogos Olímpicos são concebidos como um acto viril por excelência e a participação feminina é por ele considerada “impensável, inestética e incorrecta” (cf. Mondenard, 1985). A pretensão de Coubertin de fazer dos jogos olímpicos um reduto de afirmação da masculinidade, não obteve sucesso perante algumas mulheres, suas congéneres de classe e, eis que, logo nos Jogos de 1900, senhoras da alta burguesia competem em Desportos considerados femininos - ténis e golfe[5]. “Chattie Cooper e Margaret Abbott, são as duas primeiras galardoadas com medalhas de ouro, da história dos Jogos Olímpicos”[6]. A prática desportiva oferece às mulheres a “acção” indispensável ao acto heróico. Porém as mulheres, na sua maioria não aderem desde logo a esta ideia por esta se afastar do ideal de fragilidade feminina.
Em 1935, numa mensagem radiofónica de Berlim sobre as bases filosóficas do olimpismo moderno, Coubertin[7] cede e diz que “também as mulheres podem participar, se tal se considera necessário”, mas salvaguarda a sua opinião sobre o assunto: (…) pessoalmente, não aprovo a participação de mulheres em competições públicas, o que não significa que se devam abster de praticar um grande número de Desportos, com a condição de não ser um espectáculo. O seu papel nos jogos olímpicos deveria ser, essencialmente, como nos antigos torneios, coroar os vencedores. (Coubertin, 1973: 213).
O mito da fragilidade feminina, também ele uma herança vitoriana, idealiza mulheres moral e espiritualmente fortes, mas física e intelectualmente fracas. Acreditou-se durante muito tempo que a prática física excessiva enfraquecia a procriação da mulher, para além de ter repercussões negativas nos órgãos reprodutores, no seu equilíbrio hormonal e sobre a sua fecundidade. Aos médicos incumbia evidenciar os efeitos perigosos de certos desportos e escolher aqueles que melhor convinham à natureza feminina[8], tanto do ponto de vista eugénico como higiénico (cf. Riordan, 1988). A primeira responsabilidade da mulher é a maternidade e, por isso mesmo, a sua responsabilidade moral é a de se afastar de actividades perigosas. A ideia da falência fisiológica das mulheres perante grandes esforços é o pressuposto de um ideário duradouro e profícuo, a solução visível para um problema maior que é o da emancipação feminina associada à prática desportiva.
O modelo de heroicidade nacional destinada às mulheres até ao século XIX é dado sob a forma de alegoria da nação (cf Eriksen, 1998): a Marianne francesa, a República portuguesa. Segundo Gillis (citado por Eriksen, 1998) “esta tradição das alegorias nacionais remonta ao Renascimento, mas parece ter-se particularmente desenvolvido durante o século XIX. (...) Esta representação da nação sob os traços de uma mulher permite incluir o feminino no nacional sem criar conflitos com os papéis sexuais habituais. Essas mulheres não fizeram nada em particular, contentam-se em ser e, sendo, realizam a nação. (...) São divindades e não mulheres reais, vivas”[9].
O número de mulheres a participar nos Jogos aumenta progressivamente a cada nova realização[10], mas os epítetos que as associam ao espaço privado (a casa e a família) vão durar muito tempo. No site oficial do Comité Olímpico de Portugal (COP)[11] existe no seu “histórico” um item designado Galeria de Ouro, no qual se incluem 14 atletas eleitos com base no número de medalhas de ouro obtidas numa única edição dos Jogos e, entre estes, aparece Fanny Blankers-Koen, uma mulher que após ter ganho quatro medalhas de ouro no atletismo ficou conhecida como a «dona de casa voadora»[12]. Este tipo de qualificação ajuda a fazer pensar o desporto como um domínio masculino e a participação da mulher como uma intrusão. E remete a acção da mulher para o espaço da sua essência fecunda: a casa, o espaço doméstico.
E se bem que a história nos tenha demonstrado o papel das mulheres na defesa da independência nacional, como é o caso de Anna na Noruega e, em Portugal, a padeira de Aljubarrota, as suas acções heróicas não consistiram em deixar o seu papel de mulheres ou o seu domínio de actuação (ambas utilizam instrumentos domésticos para vencer o inimigo). Ao contrário, as mulheres desportistas saem do domínio privado de actuação e por isso tornaram-se uma afronta para o sexo oposto, na medida em que caminham no sentido de lhes igualar as marcas.
E, por isso mesmo, sujeitam-se muitas vezes a juízos do senso comum que as tornam usurpadoras de um estatuto que não lhes pertence. Se saltam alto ou lançam longe demais parecem homens; se os homens fazem um salto ou um lançamento abaixo das expectativas parecem meninas. A este respeito Theberge considera que “o progresso conseguido no desporto feminino constitui uma forte contestação ao mito da fragilidade feminina, mas a reconstrução do desporto feminino enquanto desporto do «outro» aparece hoje de forma menos evidente, mas, por isso mesmo, mais vigorosa” (Theberge, 1995: 116).
A heroicidade desportiva das mulheres, se bem que aceite, foi no entanto sendo depurada de inconvenientes ou elementos contra-natura. Por exemplo, em Portugal na década de 60, o Século Ilustrado apresenta os resultados de entrevistas realizadas a atletas olímpicas de outros países, e mostra como no contexto do sacrifício que representam os treinos arranjam tempo para tratar dos maridos:
A mulher moderna nos Jogos Olímpicos: Sacrificada a linha à glória dos estádios. (...) Ouvimos muitas outras atletas mas a conversa varia pouco. A resistência de uma campeã equivale-se em qualquer latitude. Há atletas mais ou menos «fanáticas», mais ou menos próximas do ideal feminino, mas a essência mantém-se. Muitas continuam a praticar desporto mesmo depois de casadas. Por exemplo, a atleta canadiana Ernesyine Russel Carter (que consegue ser sempre graciosa) diz que o sacrifício maior é estar longe do marido, o resto nada lhe custa, pelo contrário, diverte-a. Considera o desporto um «hobby». Diz que durante o treino, esquece tudo, mas à noite volta a sentir-se mulher e procura ser atraente para o seu marido[13].
O meio eficaz de construção da heroicidade das mulheres consistia em apresentá-las como esposas e companheiras, devotas aos seus maridos cuja actividade desportiva não as afastava do ideal feminino. Os artigos do Século Ilustrado revelam ainda uma curiosidade por atletas casadas e, em especial, por aquelas que já eram mães.
A fragilidade de Rosa Mota, um predicado da feminilidade, muitas vezes impeditivo à participação desportiva das mulheres, não foi obstáculo a vitórias sucessivas numa prova que foi exclusiva a homens durante quase um século. E Rosa Mota, uma mulher comum, é tornada celebridade através de um feito atlético ímpar: vence 14 maratonas.
Em primeiro lugar, antes dela, nenhuma outra o poderia ter feito, pelo simples facto da prova ter sido vedada à participação das mulheres até 1982 nos Campeonatos da Europa e nos Jogos Olímpicos até 1984. Com base num pseudo-argumento fisiológico, acreditou-se durante muito tempo que a endurance da mulher era inferior à do homem. Por isso a mulher sucumbiria a esforços prolongados como os exigidos pela maratona ou pelas provas de fundo e meio-fundo em geral.
Foi nos Jogos Olímpicos de 1928 que aparecem, pela primeira vez, corridas femininas de 100, 400, e 800 metros, salto em altura e lançamento do disco. Os 800m foram considerados dramáticos: de onze concorrentes sucumbiram à prova oito. A prestação nesta prova enformou de tal modo os argumentos contra a participação feminina que, muito embora não tenham conseguido retirar de cena o atletismo feminino, a prova de 800 metros desaparece para só voltar trinta e dois anos depois, em 1960. Em segundo lugar, a maratona (cf. Hauman, 1996), prova mítica do atletismo, fundadora e trágica, foi durante anos considerada uma prova de fim de carreira.
O percurso seguido por Rosa Mota tem tanto de singular, na parceria que estabelece com o seu treinador (cf. Pinhão, 1999: 52)[14], na relativa independência de um clube tutelar[15] e até da própria Federação Portuguesa de Atletismo, como de comum a todos os atletas de alta competição, no que respeita ao método de treino e estilo de vida seguidos no contexto da preparação e participação nas competições internacionais.
São os aspectos da sua singularidade que lhe darão a vantagem em relação a Aurora Cunha[16], também campeã e muitas vezes sua rival nacional, e lhe possibilitam a chegada ao patamar de convivência com o grupo de elite com que disputa, e vence, as grandes provas: Lisa Martin, a belga Agnes Pardaens, Joan Benoit, BeurKens, Doerre, Greta Waitz, grupo cosmopolita de mulheres de países ocidentais que compete entre si.
Para Hargreaves (1994) a prática desportiva das mulheres constitui-se num lugar de luta social e resistência à ideologia dominante, à própria ciência, nomeadamente as ciências médicas. Estas estão investidas de uma pseudo-cientificidade com o objectivo de encontrar diferenças biológicas para criar diferença, leia-se desigualdade cultural e social.
O lugar central ocupado pelas performances do corpo na competição desportiva dá uma significação particular à relação que é estabelecida entre poder social e a força física. Esta ideia é vincada por autores como Theberge (1995) que mostra como o desporto é usado como estandarte de igualdade de direitos. Porém, Theberge coloca em causa aquilo que legitima, porque ajuda a pensar as categorias de género em relação hierárquica: os homens primeiro e depois, atrás deles, as mulheres.
Em nenhuma prova, nem ao longo do tempo, o recorde das mulheres supera o dos homens. Não obstante, a diferença entre os recordes das mulheres e o dos homens tem vindo a diminuir: na década de 30, no salto em altura, os homens registam uma marca superior em 38 centímetros enquanto que, na década de 80, a diferença é de apenas 13 centímetros. Apesar da aproximação de resultados se verificar em todas as provas, as performances continuam a fazer pensar as capacidades atléticas das mulheres como sendo inferiores às dos homens, uma hierarquia que não se contesta face aos resultados medidos em metros e segundos. E é esta pretensa objectividade, baseada em medidas rigorosas que, como Theberge refere, acentua de forma naturalizante a diferença de género para explicar o poder social tido pelos homens. Como nota Lois Bryson “a natureza física do desporto dá-lhe uma significação particular por causa do lugar fundamental entre o poder social e a força física. O desporto é a grande arena onde a força e a resistência físicas estão imbrincadas na masculinidade hegemónica e na ideologia que daí advém” (cit. por Theberge 1995: 173).
O modelo heróico da modernidade, com grande projecção e visibilidade nos Jogos Olímpicos reflecte, de certo modo, as principais mudanças e progressos conseguidos com vista à igualdade de acesso das mulheres ao desporto e pode, eventualmente, desvelar algumas tensões provocadas pela transformação das relações homens-mulheres na sociedade
3.2. Vitórias olímpicas e compensação de falta de poder social
A objectividade da medida cede a leituras subjectivas apoiadas muitas vezes por interpretações ligadas com a aparência do corpo, com as aparências fenotípicas, recurso importante para a formação de inferências racistas. Quer através da reificação das proezas atléticas dos afro-americanos (Hoberman, 1997), quer através do arquétipo da inteligência táctica dos atletas brancos (Burfoot, 1999) ou, ainda, a mítica naturalização dos corredores de longa distância do Quénia (Bale, 1999; Maguire, 1999), o desporto pode ser usado para promoção de patologias raciais.
Horrocks (1995) afirma que, não obstante o desporto se ter tornado uma das áreas de afirmação da chamada black culture, e sobretudo proporcionar aos negros mais jovens a positive sense of identity, também contribui para o acentuar do estereótipo negativo e para a guetização do homem negro. Para Horrocks, o domínio dos negros em certos desportos é mais um sinal de racismo do que de progresso. O autor coloca claramente o problema: a exclusão dos negros do acesso a carreiras de prestígio em áreas com poder social é contornada pela imagem do desporto como promessa de poder. Para os excluídos, as vitórias olímpicas funcionam como compensação da falta de poder social ou como segunda via para alguns alcançarem um estatuto social de maior prestígio. O herói desportivo negro questionou a hierarquia com que é, muitas vezes, pensada a pluralidade de uma comunidade.
O desporto impõe a construção de identidades sociais a partir de certos atributos físicos em detrimento de outros, o que proporciona um discurso tipo sobre a relação entre corpo e a mente e acentua distinções de género, raça e classe. Deste modo, o desporto dá conta de duas naturezas: de um lado os homens, naturalmente mais fortes que as mulheres, devido à discrepância de tempo entre a maturação das mulheres, que ocorre mais cedo que a dos homens, a explicar a menor estatura e constituição muscular destas; e, de outro, a diferença entre os homens brancos e homens negros, explicada pela crença do “negro pujante” com melhor apetência para o desporto, suportado por outras tantas crenças evolucionistas que explicam essas capacidades pela suposta maior “proximidade civilizacional da vida na selva”.
A competição olímpica, de grande visibilidade pública, reafirma as distinções sociais mas, na medida em que as expõe, também as põe em causa. Foi o que aconteceu nos Jogos Olímpicos do México em 1968, com os atletas negros americanos Carlos e Smith, vencedores dos 200 metros, ao erguerem o punho com luvas negras e olhando o chão durante o hastear da bandeira do seu país, manifestando-se deste modo a favor do “projecto dos direitos humanos”. O presidente Brundage expulsou-os da vila olímpica logo no dia seguinte. A visibilidade da acção destes campeões olímpicos permitiu questionar categorias analíticas vulgarizadas através do senso comum, e colocar em agenda a discussão sobre os direitos humanos.
Considerações finais
Com o advento da televisão e das transmissões via satélite, os grandes eventos desportivos superam as Expos porque a competição contém o drama essencial ao ganho das audiências, e os Jogos Olímpicos passam a ser evento mediático e global.
A tradição, em 2006, liga-se a um século de existência e, no fim do século XIX, inventa-se a si própria como germen simbólico dos Jogos da antiguidade. A modernidade do projecto olímpico reside também no saber apontar as suas próprias “raízes” – Os Jogos Olímpicos da Grécia – ideia que, desde logo, lhe assegurou a antiguidade requerida e, ao mesmo tempo, a continuidade esperada. A cada nova repetição os Jogos constituem inovação, quer ligada com o incentivo à investigação em estruturas de suporte, como o são as instalações e os instrumentos de medida do tempo, quer ligada com o planear de outros tempos directamente ligados com a competição, como as ciências do treino dos atletas, quer ainda com as tecnologias de transmissão de som e imagem. A proposta de Coubertin é clara, o que ele pretende é formar atletas cavalheiros e cosmopolitas. O que na realidade acontece é muito mais vasto e abrangente: de amadores a profissionais, de atletas a “estrelas de cinema”, com Jonh Weissmuller – o famoso Tarzan – a ser o pioneiro da relação significante entre o desporto e o cinema, os campeões olímpicos são hoje mercados, mercadoria e mercadores, à medida da eficácia da gestão do marketing associado à sua própria imagem.
A celebração do corpo do atleta, tornado herói, depressa será moldada em prol de projectos nacionais de afirmação ideológica díspar que vêem nos atletas vencedores a imagem positiva e concreta do indivíduo colectivo que, nos Jogos, representam. A medida da performance desportiva, vai ser usada como acto de classificar, ordenar, discriminar, criticar, tanto os atletas como os países que representam. A medida enquanto expressão de um colectivo vai ser o indicador do “quem somos” e, a produção da identificação com os resultados, dará, muitas vezes, substância à construção da diferença social sustentando a desigualdade em vez de esbatê-la.
O “bater recordes” para além de símbolo do “ultrapassar de si” representa a recusa de limites naturais, a busca da perfeição joga-se no interior de um quadro de construção e afirmação de hierarquias várias, legitimadas por unidades de medida ínfimas como é o centésimo de segundo. A competição olímpica é o palco moderno de afirmação dos valores do progresso e da razão expressos no ideal de justiça da objectividade da medida. A aparente neutralidade da objectividade da medida da performance vai servir para legitimar e reforçar hierarquias socias mas também, e na medida em que lhes oferece visibilidade, as põe em causa. O atleta herói encontra espaço aberto à negociação, emancipação e, de certo modo, à contestação social.
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[1] Holt & Mangan (1996: 3)
[2] Expressão urilizada por Holt & Magan (1996: 3).
[3] Ver Anderson (1991)
[5] Desportos tolerados à prática feminina porque não envolviam confronto físico
[6] http://www.infordesporto.pt/sydney2000/galeria.asp [Abril de 2001]
[7] Verifica-se, paradoxalmente, que vídeos como Ídolos do Estádio – Olimpíada (Parte I), e Vencedores (Parte II), ou ainda 100 Anos de Glória Olímpica (partes I e II) depuram os discursos de Coubertin de forma a não aparecer nunca a sua opinião sobre a (não) participação das mulheres. Os seus discursos foram publicados em várias línguas e aparecem em obras como o Ideário Olímpico (Coubertin, 1973) e Pédagogie Sportive (1972). Não obstante, no terreno, o ideário de Coubertin está presente ainda hoje em campanhas publicitárias como a de levar as mulheres aos estádios para ver (e supomos que aplaudir) os homens a jogar futebol.
[8] Sobre a construção social do paralelismo entre relação homem/mulher e cultura/natureza, Sherry Ortner (1981) salienta que a mulher está tão próxima da natureza como o homem uma vez que ambos têm consciência e ambos são mortais. Segundo a autora, são vários os aspectos (físico, social, psicológico) que contribuem para ver a mulher mais perto da natureza e o homem mais associado a cultura e, estes aspectos, reproduzem-se ao nível institucional. Assim sendo, Ortner considera que, não será só através da atribuição de quotas que as mulheres conseguirão igualdade mas sim através de uma mudança conjuntural que poderia ser iniciada com medidas concretas como a revisão de manuais escolares e revisão das imagens na publicidade.
[9] Tradução livre.
[10] Ver resumo elaborado no site oficial do COP, na Infordesporto online: http://www.infordesporto.pt/sydney2000/feminino.asp
[11] http://www.infordesporto.pt/sydney2000/galeria.asp
[12] Fanny Blankers-Koen: Com 30 anos, mãe de dois filhos, ficou conhecida nos Jogos de Londres, em 1940, como «a dona de casa voadora» . Esta holandesa ganhou quatro medalhas de ouro nos 100 e 200 metros, 80 metros barreiras e estafeta 4 x 100 metros.
[13] Século Ilustrado, 17 de Julho de 1960
[14] Em entrevista dada a Leonor Pinhão, Rosa Mota diz que em casa, divide as tarefas com José Pedrosa: « se eu cozinho, o Zé limpa a louça, mas é verdade que é raro eu cozinhar.» O Zé interrompe: «E ainda bem, não sabem o que é a Rosa a cozinhar.» (...)Os dois levam uma vida agradável: «É importante ir vencendo ... porque dá prestígio e porque nos dá o dinheiro que nos consente esta liberdade de que tanto gostamos».
[15] Idem, “em 1987, o Benfica quis contratar Rosa Mota. O episódio é revelado no número de Julho de 87 de A Bola Magazine. (...) Eles (Rosa e José Pedrosa) são autênticos militantes dos clubes pequenos e têm um certo horror à filosofia dos grandes clubes.”
[16] Pociello (1999: 88) explica a necessidade, na produção da heroicidade desportiva, de duplas como a que em Portugal existiu entre Rosa Mota e Aurora Cunha, ou entre Carlos Lopes e Fernando Mamede: “c’est dans les opositions figurales, désignés par ces deux exemples, que réside l’intérêt dramatique de la compétition et sa relance. C’est enfim la sollitude étonnante des Français pour le faible ou pour le dominé (passagèrement) et leur soutien de celui qui se bat bien et qui va redresser une situation gravement compromise”
15.11.09
Heróis Olímpicos e o valor do centésimo de segundo (II)
2. Celebração do corpo atlético: imagem positiva e concreta da nação
É sob a égide dos Jogos Olímpicos que a Omega – um dos patrocinadores do evento, desde os Jogos de Los Angeles, em 1932[1] – experimenta novas tecnologias de medição e proporciona, com a variação provocada pela passagem da leitura ao centésimo de segundo, o “bater” de novos recordes[2]. Por sua vez o “bater recordes” aumenta a espectacularidade do evento atraindo novos patrocínios ajudando a assegurar a realização do evento periodicamente.
Medir, medir o tempo, tornou-se uma tarefa cada vez mais exigente e, para o efeito, as companhias ligadas com a relojoaria têm equipas de investigação no terreno nas provas dos Jogos Olímpicos, para procederem ao levantamento de problemas ligados com a aplicação dos novos instrumentos e inventariar outras necessidades.
A competição olímpica realça uma das características do desporto de competição: a ênfase dada à quantificação, à medida. A performance é medida em metros, em quilogramas, em segundos, ou através de um sistema de pontuação. A medida da performance desportiva vai ser usada como acto de classificar, ordenar, discriminar, criticar, tanto os atletas como os países que estes representam. A medida, enquanto expressão de um colectivo, pode ser indicador de quem somos, produz identificação com os resultados, elementos que, muitas vezes, dão substância à construção da diferença de género e de raça. A produção identitária dada pela medida encontra no desporto, um terreno construído como não ideológico e apolítico de tal modo é objectivo o resultado[3]. A medida da “nostrificação” e o ranking são não só indicador de quem somos como ajuda a desenvolver sentimentos de conexão.
O herói olímpico, tal como todos os outros heróis, é dado pela História mas, sobretudo, é construído cultural e socialmente. A sua figura pode variar segundo os períodos históricos e os contextos políticos[4], em função dos locais de pertença e das entidades sociais de afiliação.
O desenvolvimento militar dos estados, marcado pelas duas Grandes Guerras, faz deste grande evento desportivo um momento de afirmação político-ideológico. O “mundo corporal” do desporto é chamado a fazer passar uma imagem positiva concreta da nação, o herói olímpico como que antropomorfiza a ideia de nação tornando objectivas as suas qualidades de afirmação da raça.
Os heróis olímpicos são, antes de mais, campeões e, nos anos 20, têm de ser gentleman - o sportsman - algo do domínio masculino (aristocrata e burguês) que, entre as duas guerras, vai ser transformado num arquétipo nacional, afirmação da superioridade de raça, como o pretendia Hitler, e doravante, o atleta vencedor tende a ser visto como a imagem positiva e concreta do “corpo da nação”.
Ainda numa fase de afirmação do próprio movimento olímpico os primeiros Jogos anunciam-se como a epítome da harmonia internacional e, seguindo o ideário de Coubertin, o movimento olímpico criaria uma “armada” internacional de atletas cosmopolitas unidos pela honra cavalheiresca tradicional. Os corpos dos atletas são discursados como epítome das qualidades estimadas para o “corpo-projecto”[5] da nação: jovem, saudável, disciplinado e em forma.
O facto de nos Jogos Olímpicos as equipas serem nacionais tem também o efeito perverso, do qual Coubertin dá conta nos JO de Londres: durante o evento são vaiados atletas americanos e franceses, evidenciando a ambivalência do significado da representação do colectivo nacional por parte dos atletas. A metáfora da guerra, que está presente em muita da terminologia de suporte da competição desportiva, serve o enaltecimento do sacrifício do corpo do atleta no estádio e nas pistas em prol da Pátria mas conduz também à identificação do “outro” como “inimigo” que tem de ser vencido na “batalha” que é a competição.
É enquanto colectivo, existindo como ser singular, que a nação se revela de um modo muito eficaz. Capaz de incarnar o colectivo societal como uma entidade individual, ela tende a reproduzir as feições, os próprios traços dos indivíduos (cf. Delannoi, 1987). E, deste modo, o corpo do campeão olímpico tende a ser visto como um projecto nacional que pode ser trabalhado e acabado como parte de uma auto-identidade nacional. O discurso da raça, muito frequente nos primeiros jornais dedicados ao sport, representa o embodied biográfico da nação. É o atleta, em representação de toda uma nação, enquanto “indivíduo colectivo”, que bate recordes, que ganha medalhas. O corpo do campeão olímpico dá evidência à “forma física” da Nação, ao seu estado psicológico, que se espera imbatível na disputa com outros “corpos nacionais”.
2.1. Atletismo: o “poder dos nórdicos” / “natureza dos africanos”
Os atletas finlandeses ganharam mais medalhas que qualquer outro país participante, entre 1920 e 1936, nas corridas de 5000 e 10000 metros. Paavo Nurmi, com 55 anos, verá consagradas as suas vitórias dos anos vinte ao transportar a tocha olímpica na abertura dos Jogos de Helsínquia, nos quais vai ter grande destaque o checo Emil Zatopeck com três medalhas de ouro no atletismo e, a partir desta data, vai ser considerado como um cidadão honorário daquele país. O primeiro atleta finlandês a vencer os JO é Hannes Kolehmainen, mas é Nurmi quem vai ser conhecido como o “finlandês voador”, com 9 vitórias olímpicas e 31 recordes do mundo. Só em Paris, nos Jogos de 1924, quebra dois recordes com apenas 55 minutos de repouso entre as duas corridas. Sobre as vitórias dos finlandeses no atletismo foram criadas narrativas, no jornalismo desportivo do país, que ajudaram a construir o imaginário sobre o que é “ser nórdico”. Um país pequeno que faz fronteira com a Rússia, a Noruega e a Suécia, com uma população inferior à cidade de Nova York , tem agora dados sobre o “nós”: uma nação branca, ocidental e nórdica (Bale, 1989; Bale & Sang, 1996; Gutmann, 1992; Hargreaves, 1992). A atenção dada pelos media ao movimento olimpico baseia-se essencialmente na promoção de sentimentos nacionais e um compreender do “nós” entre os outros estados nação. A presença de outras nacionalidades, culturas e grupos sociais é empregue no enaltecer da ideia que “nós” partilhamos um carácter e cultura nacionais únicos (cf. Gutmann, 1992).
Os Jogos Olimpicos, antes da II guerra, foram um dos maiores contributos para a categorização e a racialização das comunidades nacionais enquanto grupos imaginários – uma nação era vista não apenas como uma cultura mas também como uma comunidade racial. A divisão da humanidade em grupos raciais é sempre arbitrária, o que significa que a racialização é um processo político e ideológico através do qual se organizam as interacções e relações nas escalas local, nacional e global (cf. Miles, 1993). De acordo com Miles (1993), a racialização por si só não é uma prática racista, o racismo acontece quando há relações de poder que levam a avaliações negativas do “outro” baseadas apenas nas características culturais e biológicas por relação a um “nós” tornado superior graças a essa mesma avaliação.
Os feitos dos campeões olímpicos tornaram possível o manipular de imagens raciais da população finlandesa e, desta feita, o sucesso no desporto foi visto como um meio de projecção da imagem nacional para o público internacional (cf. Jorgensen 1998): a
Finlandia mostra-se um ideal de nacionalismo desportivo. As vitórias de Nurmi, anos mais tarde reforçadas por Lasse Viren – vencedor das medalhas de ouro nos 10000 e nos 5000 metros – e Pekka Vasala – medalha de ouro nos 1500 metros –, nos Jogos de Munique de 1972, torna-os heróis da nação e, nas narrativas das vitórias desportivas, são hoje mitos nacionais. Os jornais tiveram um papel importante na criação da imagem de que os finlandeses são uma nação forte e branca parecida a alemães e anglo-saxões nas suas qualidades raciais.
Em 1988, nos Jogos de Seul, os atletas do Quénia[6] ganham quatro medalhas de ouro e duas de prata[7], na senda do lendário Abebe Bikila medalha de ouro nas maratonas dos Jogos de 1960, nos Jogos de Roma, e de 1964, em Tóquio, e de Kipchoge Keino (medalha de ouro em México de 1968 nos 1500 metros e de prata nos 5000 metros e medalha de ouro em Munique de 1972 nos 3000 metros e prata nos 1500 m). A singularidade das vitórias dos atletas quenianos, tal como as dos etíopes e, neste último caso, salienta-se Miruts Yifter (2 medalhas de ouro, nos 5000 e nos 10000 metros) nos Jogos de Moscovo, quando analisadas nos media dos países europeus, reside na natureza[8], nas montanhas, no viver em altitude. Ao nível comercial, o discurso da naturalização das capacidades dos atletas, vai ser incorporado no marketing turistico[9] de auto-promoção do Quénia, país com a altitude ideal para o treino de atletas de corridas de fundo.
As narrativas associadas às vitórias vão procurar explicação em atributos vários para desenvolver ideias ligadas com a identidade nacional ou procurar sustentação “objectiva” para a manutenção de hierarquias sociais, “raciais”, como também entre países. Autores como Baker & Horton (2003) concluem que tanto as vitórias dos finlandeses como as dos atletas dos quenianos e dos etíopes desenvolveram uma aura de invencibilidade, tanto nas suas mentes como nos seus opositores, e será agora esta psicologia, ou mindset, um factor adicional importante para manter a dominância.
2.2. A supremacia ariana e as vitórias de Jesse Owens
Com atletas a provir, cada vez mais, de fora das classes aristocráticas e burguesas ligadas ao lazer são criadas tensões de “raça” e de classe, tensões essas transportas para o filme sobre as olímpiadas de Paris de 1924, Chariots of Fire[10]. As primeiras vitórias no desporto de atletas negros, logo nos Jogos de Berlim de 1936, causaram impacto porque questionaram a hierarquia racial preconcebida, ideias sobre a superioridade da “raça ariana”, ou dos “nórdicos”, vão ser (re)equacionadas.
Num primeiro momento, vão ser procuradas variáveis fisiológicas e anatómicas, ainda permeáveis às ideias folclóricas da diferença racial, que expliquem a performance de excelência dos negros. Num segundo momento, vai justificar-se a excelência através da naturalização dos feitos[11] fundamentada na ideia da ancestralidade da vida selvagem.
Jesse Owens, neto de escravos, representa os Estados Unidos nos Jogos de Berlim nas corridas de velocidade e no salto em comprimento. Na primeira série dos 100 metros iguala o recorde olímpico; na final, é o primeiro durante toda a corrida e resiste ao sprint final do seu compatriota a quem ganha com um metro de avanço. Owens qualifica-se para a final de salto em comprimento e nenhum atleta consegue igualar os seus três melhores saltos. No dia seguinte ganha os 200 metros o que lhe vale a terceira medalha de ouro em três dias. Quatro dias depois, incluido na equipa de 4 x 100 m vai ser co-responsável por um recorde que vai demorar 20 anos a ser batido. Para além do feito atlético, Owens mostra a fragilidade da teoria que supunha a superioridade racial ariana.
Em Primacy of performance: Superman not Superathlete, Hoberman (1999) defende que não obstante as ideologias nazis tivessem como símbolo de vigor racial o corpo masculino bem musculado, nunca incluíram um atleta de alta-competição no panteão dos heróis genuinamente nazis. E uma das razões apontadas pelo autor é o facto de parte da doutrina racial nazi admitir que em certos casos – e as Olimpíadas de Berlim de 1936 foram disso testemunho – os atletas negros eram superiores, o que diminuía a importância deste tipo de performance humana aos olhos dos racistas mais convictos.
De um lado as vitórias de Owens e, do outro, a tribuna de estetização política a servir a promoção da ideologia nazi, um instrumento de propaganda único. Leni Riefenstahl ao realizar o filme Olympia, mostra o corpo atlético estetizado de forma sublime demonstrando como a competição desportiva pode ser produtora de mitos e de uma cultura de massas. Estes Jogos foram os primeiros a ser filmados e foi também a primeira vez que foi usado o telex para a transmissão dos resultados.
2.3. Ranking das nações: a contabilidade das medalhas
1948 Londres
1. EUA
2. Suécia
3. França
4. Hungria
5. Itália
1952 Helsinquia
1. EUA
2. URSS
3. Hungria
4. Suécia
5. Itália
1956 Melbourne
1. URSS
2. EUA
3. Australia
4. Hungria
5. Itália
1960 Roma
1. URSS
2. EUA
3. Itália
4. Equipa Unida da Alemanha (1956,1960,1964)
5. Australia
1964 Tóquio
1. EUA
2. URSS
3. Japão
4. Equipa Unida da Alemanha (1956,1960,1964)
5. Itália
1968 México
1. EUA
2. URSS
3. Japão
4. Hungary
5. RDA (1955-1990)
1972 Munique
1. URSS
2. EUA
3. RDA (1955-1990)
4. RFA (1950-1990)
5. Japão
1976 Montreal
1. URSS
2. RDA (1955-1990)
3. USA
4. RFA (1950-1990)
5. Japão
1980 Moscovo
1. URSS
2. RDA (1955-1990)
3. Bulgaria
4. Cuba
5. Itália
1984 Los Angeles
1. EUA
2. Romania
3. RFA (1950-1990)
4. República Popular da China
5. Itália
1988 Seul
1. URSS
2. RDA (1955-1990)
3. USA
4. Coreia
5. RFA (1950-1990)
1992 Barcelona
1. Equipa unificada (ex URSS)
2. USA
3. Alemanha
4. República Popular da China
5. Cuba
1996 Atlanta
1. EUA
2. Federação Russa
3. Alemanha
4. República Popular da China
5. França
Tabela 2: Ranking oficial dos países com maior número de medalhas ganho nas olímpiadas desde 1948 até 1996. Dados retirados de http://www.olympic.org/uk/games/past/
No pós segunda guerra mundial os Jogos Olímpicos vão ser a arena de outras demonstrações políticas de afirmação dos estados nação. A sobrevalorização da contabilidade do número de atletas medalhados durante a “guerra fria” é disso um exemplo. Os Jogos Olímpicos tornam-se palco de uma luta simbólica entre o “sistema capitalista” e o “sistema socialista”. O número de medalhados passou a representar poder e progresso tecnológico, afirmação e orgulho na ideologia de cada um dos “sistemas” em oposição. A vitalidade de cada um vai ser analisada pela capacidade de produção de heróis desportivos e, essa vitalidade, mede-se em número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos. “O carácter individual da nação vai afirmar-se pela supremacia do nacionalismo sobre o nacional e também pelo conjunto dos caracteres personificados emprestados à nação e colados ao colectivo comunitário. Aqui a conotação vital toma toda a sua amplitude organicista. E não se trata de um organicismo teórico procedente de analogia conceptual entre corpo e sociedade. É um organicismo de facto, vivendo, produzindo como uma árvore os seus frutos, provas de vitalidade” (cf. Delannoi, 1987).
Em 1952, nos Jogos de Helsínquia aparece a União Soviética (URSS) o que faz aumentar o número de participantes nas olimpíadas e, nomeadamente, o número de mulheres. No contexto da guerra fria é exacerbada a reivindicaçao das vitórias dos atletas como provas de superioridade do “carácter nacional”, associado à sugestão do maior poder tecnológico subjacente ao desenvolvimento desportivo. Interessa mostrar qual o sistema que produz mais e melhores atletas e, para isso, facilita-se cada vez mais o acesso das mulheres ao panteão da heroicidade nacional no âmbito da competição desportiva.
A disputa pelos dois primeiros lugares no topo da hierarquia só é interrompida nos anos de boicote: com a invasão do Afeganistão o presidente Jimmy Carter anuncia o boicote aos Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980, e a União Soviética e países satélites, por sua vez, não participam nos Jogos de Los Angeles, em 1984.
Em Helsínquia de 1952, são os Estados Unidos da América (EUA) que ganham maior número de medalhas logo seguidos pela URSS, mas o herói dos Jogos é Emil Zatopek, um checoslovaco que fica conhecido como a locomotiva humana[12], quatro vezes campeão olímpico, três vezes recordista mundial, nas corridas de fundo. No México, em 1968, Mark Spitz com quatro medalhas na natação, duas das quais de ouro, e Richard Douglas Fosbury no revolucionar da técnica de salto em altura, enfatizam de modo espectacular o primeiro lugar dos EUA no podium das medalhas. Já em 1972, nos Jogos de Munique as sete medalhas de ouro de Spitz não chegam para dar o primeiro lugar aos EUA – que ficam com 33 medalhas de ouro contra 50 ganhas pela URSS. Da URSS, destaca-se, com três medalhas de ouro, a ginasta Olga Korbut. Mas na competição olímpica o clamar de superioridade de um grupo sobre outro não se restringe à contabilidade do número de medalhas conseguido, chega mesmo a gerar agressividade e, os Jogos de Munique, foram um caso extremo, e dramático, de contestação radical: doze pessoas morreram, entre as quais nove atletas israelitas. A competição olímpica neste caso particular tornou-se num immensely serviceable alibi for agression (Gay, 1963: 68).
Nos Jogos de Montreal de 1976, é a URSS e a Alemanha Democrática (RDA) que ocupam os lugares cimeiros, ficando os Estados Unidos em terceiro lugar, mas a atleta que ficará para a história será a romena Nadia Comaneci que consegue a atribuição da nota dez na ginástica, pela primeira vez na história Jogos Olímpicos. A atleta volta a ganhar ouro e prata na ginástica nos Jogos de Moscovo, em 1980, nos quais os EUA não participam, ficando nos primeiros lugares países socialistas: em primeiro a URSS, em segundo a Bulgária e, em terceiro, Cuba.
Em 1984 nos Jogos de Los Angeles, os EUA, sem a URSS na competição, dominam o espectáculo com atletas como Michael Jordan na equipa de basquetebol, e Carl Lewis a ganhar seis medalhas de ouro – nas modalidades de 100 m, 200 m, 4 x 100 m e salto em comprimento. Em Portugal, as imagens que na televisão se repetem e o atleta que faz as manchetes é Carlos Lopes que, na corrida da maratona, consegue a primeira medalha de ouro para a representação portuguesa, pela primeira vez na história da participação olímpica nacional. Com Rosa Mota e António Leitão a ganharem duas medalhas de bronze, na maratona e nos 5000 metros respectivamente. Carlos Lopes já havia ganho a medalha de prata nos 10000 metros, nos Jogos de 1976, tendo sido ultrapassado por Lasse Viren na última volta.
Em 1988, em Seul, a URSS fica nos primeiros lugares do ranking, tendo na representação do país o campeão Sergey Bubka: campeão olímpico de salto à vara, e vencedor de seis campeonatos do mundo. Estreia-se nestes Jogos a jovem alemã (RFA) de 15 anos Steffi Graff com uma medalha de ouro no ténis, competição individual, e outra de prata em pares. Três anos depois, em 1987, será número um no ranking das melhores tenistas do mundo. Os EUA, em terceiro lugar no ranking das medalhas ganham ainda mais visibilidade mediática com a atleta de velocidade Florence Griffith Jones (que vai ficar conhecida como Flo-Jo) que ganha três medalhas de ouro e, para além disso, mostra que as suas enormes unhas pintadas são parte de um projecto de singularidade corporal.
A Alemanha do pós-guerra apesar de fraccionada, ocupada pelos países Aliados e a União Soviética volta ao quadro da competição olímpica em 1956 com a denominação Equipa Unida da Alemanha – uma equipa a representar uma nação já dividida. Os Jogos Olímpicos servirão também para legitimar a divisão territorial das duas alemanhas e respectiva disputa no quadro das nações com maior número de medalhas. E, em 1992 nos Jogos de Barcelona, aparece como sendo uma equipa propiciadora à idealização da nova Alemanha reunificada, após a queda do muro de Berlim.
A centralidade deste mega-evento desportivo leva a que mesmo países recém-formados, e nomeadamente aqueles que foram descolonizados, procurem no desporto, muitas vezes marca do país colonizador, e no espaço da competição olímpica a afirmação da sua identidade nacional na esfera internacional. A medalha de ouro dos 800 metros conquistada por Maria Mutola, nos Jogos de 2000, proporciona um ganho mediático a Moçambique que se estende no tempo, com o Herald Tribune a fazer uma reportagem denominada Candle Who Brings a Ray of Hope publicada em 22 de Janeiro de 2004, depois reproduzida nas televisões. E, deste modo, a própria nação dá conta de si própria, e dá conta de que faz parte da comunidade internacional.
Os media, em especial os directos de transmissão televisiva, são determinantes nesta relação entre competição desportiva identidade nacional: são as cadeias de televisão que pagam os direitos de transmissão e, claro, escolhem os momentos da competição que garantam o maximizar da audiência nacional, momentos quase sempre ligados com a participação de atletas desse mesmo país. A heroicidade do atleta tem assim um tributo territorial singularizado pela história de outros feitos que se acreditam fazer parte do “carácter nacional”. Casos como Catherine Freeman, a primeira arborígene a representar a Australia nos Jogos de 1992, e transporta a chama olímpica nos Jogos Olímpicos de Sydney de 2000, mostram as ambiguidades da construção da ideia desse mesmo “carácter nacional”, alertando para os problemas da não aceitação da pluralidade e, no caso, originando casos dramáticos de descriminação dos arborígenes.
A abertura a atletas profissionais, e a comercialização olímpica a partir de 1986, feita pelo COI a nível mundial, estreita relação entre as grandes marcas multinacionais. É o período dos grandes dos patrocínios e do merchandising dos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, suportados pela Coca Cola e pela CNN. Com os atletas campeões a surpreender quer pelas proezas como Magic Jonhson, quer pela surpresa da associação ao doping como Ben Johnson.
[1] Sobre a História da Omega nos Jogos Olímpicos ver http://www.antiquorum.com/html/vox/vox2003/officialsports/officialsports.htm, consultado em Janeiro de 2006
[2]«Les sportifs devraient être représentés avec un mètre à la main… et pas seulement une couronne de laurier.» Musil, Proses éparses. Paris: Seuil, 1989, p. 209.
[3] Ver a propósito Hargreaves (2000 ) e Horrocks (1995)
[4] cf. Centlivres, Fabre & Zonabend, 1998
[5] Ver a propósito do conceito “corpo projecto” (Shilling, 1993)
[6] Sobre biografias de maratonistas quenianos ver: http://www.nairobimarathon.com/tradition.htm
[7] A estas se junta mais duas (uma de ouro e outra de bronze) no boxe. Ver http://www.olympic.org/uk/games/past/index_uk.asp?OLGT=1&OLGY=1988 consultado em Março de 2006
[8] http://www.gnxp.com/MT2/archives/002505.html, consultado em Março 2006
[9] http://www.nationaudio.com/News/EastAfrican/06052002/Features/Magazine1.html consultado em Março 2006
[10] Realizado por Hugh Hudson em 1981.
[11] Em The Anatomy of Scientific Racism: Racialist Responses to Black Athletic Achievement, Miller (1998:130), refere ironicamente o seguinte: “It imagined that when blacks in Africa had been off running and hunting, the ancestors of white athletes were composing symphonies and building cathedrals, witch placed their descendents at a substantial disadvantage at the modern-day Olympics, which was supposed to showcase the strenuous elements within the European cultural tradition.”
[12] Sobre a biografia do atleta ver: Sérgio (1980: 37-42) e Fauria (1973: 109-120)
É sob a égide dos Jogos Olímpicos que a Omega – um dos patrocinadores do evento, desde os Jogos de Los Angeles, em 1932[1] – experimenta novas tecnologias de medição e proporciona, com a variação provocada pela passagem da leitura ao centésimo de segundo, o “bater” de novos recordes[2]. Por sua vez o “bater recordes” aumenta a espectacularidade do evento atraindo novos patrocínios ajudando a assegurar a realização do evento periodicamente.
Medir, medir o tempo, tornou-se uma tarefa cada vez mais exigente e, para o efeito, as companhias ligadas com a relojoaria têm equipas de investigação no terreno nas provas dos Jogos Olímpicos, para procederem ao levantamento de problemas ligados com a aplicação dos novos instrumentos e inventariar outras necessidades.
A competição olímpica realça uma das características do desporto de competição: a ênfase dada à quantificação, à medida. A performance é medida em metros, em quilogramas, em segundos, ou através de um sistema de pontuação. A medida da performance desportiva vai ser usada como acto de classificar, ordenar, discriminar, criticar, tanto os atletas como os países que estes representam. A medida, enquanto expressão de um colectivo, pode ser indicador de quem somos, produz identificação com os resultados, elementos que, muitas vezes, dão substância à construção da diferença de género e de raça. A produção identitária dada pela medida encontra no desporto, um terreno construído como não ideológico e apolítico de tal modo é objectivo o resultado[3]. A medida da “nostrificação” e o ranking são não só indicador de quem somos como ajuda a desenvolver sentimentos de conexão.
O herói olímpico, tal como todos os outros heróis, é dado pela História mas, sobretudo, é construído cultural e socialmente. A sua figura pode variar segundo os períodos históricos e os contextos políticos[4], em função dos locais de pertença e das entidades sociais de afiliação.
O desenvolvimento militar dos estados, marcado pelas duas Grandes Guerras, faz deste grande evento desportivo um momento de afirmação político-ideológico. O “mundo corporal” do desporto é chamado a fazer passar uma imagem positiva concreta da nação, o herói olímpico como que antropomorfiza a ideia de nação tornando objectivas as suas qualidades de afirmação da raça.
Os heróis olímpicos são, antes de mais, campeões e, nos anos 20, têm de ser gentleman - o sportsman - algo do domínio masculino (aristocrata e burguês) que, entre as duas guerras, vai ser transformado num arquétipo nacional, afirmação da superioridade de raça, como o pretendia Hitler, e doravante, o atleta vencedor tende a ser visto como a imagem positiva e concreta do “corpo da nação”.
Ainda numa fase de afirmação do próprio movimento olímpico os primeiros Jogos anunciam-se como a epítome da harmonia internacional e, seguindo o ideário de Coubertin, o movimento olímpico criaria uma “armada” internacional de atletas cosmopolitas unidos pela honra cavalheiresca tradicional. Os corpos dos atletas são discursados como epítome das qualidades estimadas para o “corpo-projecto”[5] da nação: jovem, saudável, disciplinado e em forma.
O facto de nos Jogos Olímpicos as equipas serem nacionais tem também o efeito perverso, do qual Coubertin dá conta nos JO de Londres: durante o evento são vaiados atletas americanos e franceses, evidenciando a ambivalência do significado da representação do colectivo nacional por parte dos atletas. A metáfora da guerra, que está presente em muita da terminologia de suporte da competição desportiva, serve o enaltecimento do sacrifício do corpo do atleta no estádio e nas pistas em prol da Pátria mas conduz também à identificação do “outro” como “inimigo” que tem de ser vencido na “batalha” que é a competição.
É enquanto colectivo, existindo como ser singular, que a nação se revela de um modo muito eficaz. Capaz de incarnar o colectivo societal como uma entidade individual, ela tende a reproduzir as feições, os próprios traços dos indivíduos (cf. Delannoi, 1987). E, deste modo, o corpo do campeão olímpico tende a ser visto como um projecto nacional que pode ser trabalhado e acabado como parte de uma auto-identidade nacional. O discurso da raça, muito frequente nos primeiros jornais dedicados ao sport, representa o embodied biográfico da nação. É o atleta, em representação de toda uma nação, enquanto “indivíduo colectivo”, que bate recordes, que ganha medalhas. O corpo do campeão olímpico dá evidência à “forma física” da Nação, ao seu estado psicológico, que se espera imbatível na disputa com outros “corpos nacionais”.
2.1. Atletismo: o “poder dos nórdicos” / “natureza dos africanos”
Os atletas finlandeses ganharam mais medalhas que qualquer outro país participante, entre 1920 e 1936, nas corridas de 5000 e 10000 metros. Paavo Nurmi, com 55 anos, verá consagradas as suas vitórias dos anos vinte ao transportar a tocha olímpica na abertura dos Jogos de Helsínquia, nos quais vai ter grande destaque o checo Emil Zatopeck com três medalhas de ouro no atletismo e, a partir desta data, vai ser considerado como um cidadão honorário daquele país. O primeiro atleta finlandês a vencer os JO é Hannes Kolehmainen, mas é Nurmi quem vai ser conhecido como o “finlandês voador”, com 9 vitórias olímpicas e 31 recordes do mundo. Só em Paris, nos Jogos de 1924, quebra dois recordes com apenas 55 minutos de repouso entre as duas corridas. Sobre as vitórias dos finlandeses no atletismo foram criadas narrativas, no jornalismo desportivo do país, que ajudaram a construir o imaginário sobre o que é “ser nórdico”. Um país pequeno que faz fronteira com a Rússia, a Noruega e a Suécia, com uma população inferior à cidade de Nova York , tem agora dados sobre o “nós”: uma nação branca, ocidental e nórdica (Bale, 1989; Bale & Sang, 1996; Gutmann, 1992; Hargreaves, 1992). A atenção dada pelos media ao movimento olimpico baseia-se essencialmente na promoção de sentimentos nacionais e um compreender do “nós” entre os outros estados nação. A presença de outras nacionalidades, culturas e grupos sociais é empregue no enaltecer da ideia que “nós” partilhamos um carácter e cultura nacionais únicos (cf. Gutmann, 1992).
Os Jogos Olimpicos, antes da II guerra, foram um dos maiores contributos para a categorização e a racialização das comunidades nacionais enquanto grupos imaginários – uma nação era vista não apenas como uma cultura mas também como uma comunidade racial. A divisão da humanidade em grupos raciais é sempre arbitrária, o que significa que a racialização é um processo político e ideológico através do qual se organizam as interacções e relações nas escalas local, nacional e global (cf. Miles, 1993). De acordo com Miles (1993), a racialização por si só não é uma prática racista, o racismo acontece quando há relações de poder que levam a avaliações negativas do “outro” baseadas apenas nas características culturais e biológicas por relação a um “nós” tornado superior graças a essa mesma avaliação.
Os feitos dos campeões olímpicos tornaram possível o manipular de imagens raciais da população finlandesa e, desta feita, o sucesso no desporto foi visto como um meio de projecção da imagem nacional para o público internacional (cf. Jorgensen 1998): a
Finlandia mostra-se um ideal de nacionalismo desportivo. As vitórias de Nurmi, anos mais tarde reforçadas por Lasse Viren – vencedor das medalhas de ouro nos 10000 e nos 5000 metros – e Pekka Vasala – medalha de ouro nos 1500 metros –, nos Jogos de Munique de 1972, torna-os heróis da nação e, nas narrativas das vitórias desportivas, são hoje mitos nacionais. Os jornais tiveram um papel importante na criação da imagem de que os finlandeses são uma nação forte e branca parecida a alemães e anglo-saxões nas suas qualidades raciais.
Em 1988, nos Jogos de Seul, os atletas do Quénia[6] ganham quatro medalhas de ouro e duas de prata[7], na senda do lendário Abebe Bikila medalha de ouro nas maratonas dos Jogos de 1960, nos Jogos de Roma, e de 1964, em Tóquio, e de Kipchoge Keino (medalha de ouro em México de 1968 nos 1500 metros e de prata nos 5000 metros e medalha de ouro em Munique de 1972 nos 3000 metros e prata nos 1500 m). A singularidade das vitórias dos atletas quenianos, tal como as dos etíopes e, neste último caso, salienta-se Miruts Yifter (2 medalhas de ouro, nos 5000 e nos 10000 metros) nos Jogos de Moscovo, quando analisadas nos media dos países europeus, reside na natureza[8], nas montanhas, no viver em altitude. Ao nível comercial, o discurso da naturalização das capacidades dos atletas, vai ser incorporado no marketing turistico[9] de auto-promoção do Quénia, país com a altitude ideal para o treino de atletas de corridas de fundo.
As narrativas associadas às vitórias vão procurar explicação em atributos vários para desenvolver ideias ligadas com a identidade nacional ou procurar sustentação “objectiva” para a manutenção de hierarquias sociais, “raciais”, como também entre países. Autores como Baker & Horton (2003) concluem que tanto as vitórias dos finlandeses como as dos atletas dos quenianos e dos etíopes desenvolveram uma aura de invencibilidade, tanto nas suas mentes como nos seus opositores, e será agora esta psicologia, ou mindset, um factor adicional importante para manter a dominância.
2.2. A supremacia ariana e as vitórias de Jesse Owens
Com atletas a provir, cada vez mais, de fora das classes aristocráticas e burguesas ligadas ao lazer são criadas tensões de “raça” e de classe, tensões essas transportas para o filme sobre as olímpiadas de Paris de 1924, Chariots of Fire[10]. As primeiras vitórias no desporto de atletas negros, logo nos Jogos de Berlim de 1936, causaram impacto porque questionaram a hierarquia racial preconcebida, ideias sobre a superioridade da “raça ariana”, ou dos “nórdicos”, vão ser (re)equacionadas.
Num primeiro momento, vão ser procuradas variáveis fisiológicas e anatómicas, ainda permeáveis às ideias folclóricas da diferença racial, que expliquem a performance de excelência dos negros. Num segundo momento, vai justificar-se a excelência através da naturalização dos feitos[11] fundamentada na ideia da ancestralidade da vida selvagem.
Jesse Owens, neto de escravos, representa os Estados Unidos nos Jogos de Berlim nas corridas de velocidade e no salto em comprimento. Na primeira série dos 100 metros iguala o recorde olímpico; na final, é o primeiro durante toda a corrida e resiste ao sprint final do seu compatriota a quem ganha com um metro de avanço. Owens qualifica-se para a final de salto em comprimento e nenhum atleta consegue igualar os seus três melhores saltos. No dia seguinte ganha os 200 metros o que lhe vale a terceira medalha de ouro em três dias. Quatro dias depois, incluido na equipa de 4 x 100 m vai ser co-responsável por um recorde que vai demorar 20 anos a ser batido. Para além do feito atlético, Owens mostra a fragilidade da teoria que supunha a superioridade racial ariana.
Em Primacy of performance: Superman not Superathlete, Hoberman (1999) defende que não obstante as ideologias nazis tivessem como símbolo de vigor racial o corpo masculino bem musculado, nunca incluíram um atleta de alta-competição no panteão dos heróis genuinamente nazis. E uma das razões apontadas pelo autor é o facto de parte da doutrina racial nazi admitir que em certos casos – e as Olimpíadas de Berlim de 1936 foram disso testemunho – os atletas negros eram superiores, o que diminuía a importância deste tipo de performance humana aos olhos dos racistas mais convictos.
De um lado as vitórias de Owens e, do outro, a tribuna de estetização política a servir a promoção da ideologia nazi, um instrumento de propaganda único. Leni Riefenstahl ao realizar o filme Olympia, mostra o corpo atlético estetizado de forma sublime demonstrando como a competição desportiva pode ser produtora de mitos e de uma cultura de massas. Estes Jogos foram os primeiros a ser filmados e foi também a primeira vez que foi usado o telex para a transmissão dos resultados.
2.3. Ranking das nações: a contabilidade das medalhas
1948 Londres
1. EUA
2. Suécia
3. França
4. Hungria
5. Itália
1952 Helsinquia
1. EUA
2. URSS
3. Hungria
4. Suécia
5. Itália
1956 Melbourne
1. URSS
2. EUA
3. Australia
4. Hungria
5. Itália
1960 Roma
1. URSS
2. EUA
3. Itália
4. Equipa Unida da Alemanha (1956,1960,1964)
5. Australia
1964 Tóquio
1. EUA
2. URSS
3. Japão
4. Equipa Unida da Alemanha (1956,1960,1964)
5. Itália
1968 México
1. EUA
2. URSS
3. Japão
4. Hungary
5. RDA (1955-1990)
1972 Munique
1. URSS
2. EUA
3. RDA (1955-1990)
4. RFA (1950-1990)
5. Japão
1976 Montreal
1. URSS
2. RDA (1955-1990)
3. USA
4. RFA (1950-1990)
5. Japão
1980 Moscovo
1. URSS
2. RDA (1955-1990)
3. Bulgaria
4. Cuba
5. Itália
1984 Los Angeles
1. EUA
2. Romania
3. RFA (1950-1990)
4. República Popular da China
5. Itália
1988 Seul
1. URSS
2. RDA (1955-1990)
3. USA
4. Coreia
5. RFA (1950-1990)
1992 Barcelona
1. Equipa unificada (ex URSS)
2. USA
3. Alemanha
4. República Popular da China
5. Cuba
1996 Atlanta
1. EUA
2. Federação Russa
3. Alemanha
4. República Popular da China
5. França
Tabela 2: Ranking oficial dos países com maior número de medalhas ganho nas olímpiadas desde 1948 até 1996. Dados retirados de http://www.olympic.org/uk/games/past/
No pós segunda guerra mundial os Jogos Olímpicos vão ser a arena de outras demonstrações políticas de afirmação dos estados nação. A sobrevalorização da contabilidade do número de atletas medalhados durante a “guerra fria” é disso um exemplo. Os Jogos Olímpicos tornam-se palco de uma luta simbólica entre o “sistema capitalista” e o “sistema socialista”. O número de medalhados passou a representar poder e progresso tecnológico, afirmação e orgulho na ideologia de cada um dos “sistemas” em oposição. A vitalidade de cada um vai ser analisada pela capacidade de produção de heróis desportivos e, essa vitalidade, mede-se em número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos. “O carácter individual da nação vai afirmar-se pela supremacia do nacionalismo sobre o nacional e também pelo conjunto dos caracteres personificados emprestados à nação e colados ao colectivo comunitário. Aqui a conotação vital toma toda a sua amplitude organicista. E não se trata de um organicismo teórico procedente de analogia conceptual entre corpo e sociedade. É um organicismo de facto, vivendo, produzindo como uma árvore os seus frutos, provas de vitalidade” (cf. Delannoi, 1987).
Em 1952, nos Jogos de Helsínquia aparece a União Soviética (URSS) o que faz aumentar o número de participantes nas olimpíadas e, nomeadamente, o número de mulheres. No contexto da guerra fria é exacerbada a reivindicaçao das vitórias dos atletas como provas de superioridade do “carácter nacional”, associado à sugestão do maior poder tecnológico subjacente ao desenvolvimento desportivo. Interessa mostrar qual o sistema que produz mais e melhores atletas e, para isso, facilita-se cada vez mais o acesso das mulheres ao panteão da heroicidade nacional no âmbito da competição desportiva.
A disputa pelos dois primeiros lugares no topo da hierarquia só é interrompida nos anos de boicote: com a invasão do Afeganistão o presidente Jimmy Carter anuncia o boicote aos Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980, e a União Soviética e países satélites, por sua vez, não participam nos Jogos de Los Angeles, em 1984.
Em Helsínquia de 1952, são os Estados Unidos da América (EUA) que ganham maior número de medalhas logo seguidos pela URSS, mas o herói dos Jogos é Emil Zatopek, um checoslovaco que fica conhecido como a locomotiva humana[12], quatro vezes campeão olímpico, três vezes recordista mundial, nas corridas de fundo. No México, em 1968, Mark Spitz com quatro medalhas na natação, duas das quais de ouro, e Richard Douglas Fosbury no revolucionar da técnica de salto em altura, enfatizam de modo espectacular o primeiro lugar dos EUA no podium das medalhas. Já em 1972, nos Jogos de Munique as sete medalhas de ouro de Spitz não chegam para dar o primeiro lugar aos EUA – que ficam com 33 medalhas de ouro contra 50 ganhas pela URSS. Da URSS, destaca-se, com três medalhas de ouro, a ginasta Olga Korbut. Mas na competição olímpica o clamar de superioridade de um grupo sobre outro não se restringe à contabilidade do número de medalhas conseguido, chega mesmo a gerar agressividade e, os Jogos de Munique, foram um caso extremo, e dramático, de contestação radical: doze pessoas morreram, entre as quais nove atletas israelitas. A competição olímpica neste caso particular tornou-se num immensely serviceable alibi for agression (Gay, 1963: 68).
Nos Jogos de Montreal de 1976, é a URSS e a Alemanha Democrática (RDA) que ocupam os lugares cimeiros, ficando os Estados Unidos em terceiro lugar, mas a atleta que ficará para a história será a romena Nadia Comaneci que consegue a atribuição da nota dez na ginástica, pela primeira vez na história Jogos Olímpicos. A atleta volta a ganhar ouro e prata na ginástica nos Jogos de Moscovo, em 1980, nos quais os EUA não participam, ficando nos primeiros lugares países socialistas: em primeiro a URSS, em segundo a Bulgária e, em terceiro, Cuba.
Em 1984 nos Jogos de Los Angeles, os EUA, sem a URSS na competição, dominam o espectáculo com atletas como Michael Jordan na equipa de basquetebol, e Carl Lewis a ganhar seis medalhas de ouro – nas modalidades de 100 m, 200 m, 4 x 100 m e salto em comprimento. Em Portugal, as imagens que na televisão se repetem e o atleta que faz as manchetes é Carlos Lopes que, na corrida da maratona, consegue a primeira medalha de ouro para a representação portuguesa, pela primeira vez na história da participação olímpica nacional. Com Rosa Mota e António Leitão a ganharem duas medalhas de bronze, na maratona e nos 5000 metros respectivamente. Carlos Lopes já havia ganho a medalha de prata nos 10000 metros, nos Jogos de 1976, tendo sido ultrapassado por Lasse Viren na última volta.
Em 1988, em Seul, a URSS fica nos primeiros lugares do ranking, tendo na representação do país o campeão Sergey Bubka: campeão olímpico de salto à vara, e vencedor de seis campeonatos do mundo. Estreia-se nestes Jogos a jovem alemã (RFA) de 15 anos Steffi Graff com uma medalha de ouro no ténis, competição individual, e outra de prata em pares. Três anos depois, em 1987, será número um no ranking das melhores tenistas do mundo. Os EUA, em terceiro lugar no ranking das medalhas ganham ainda mais visibilidade mediática com a atleta de velocidade Florence Griffith Jones (que vai ficar conhecida como Flo-Jo) que ganha três medalhas de ouro e, para além disso, mostra que as suas enormes unhas pintadas são parte de um projecto de singularidade corporal.
A Alemanha do pós-guerra apesar de fraccionada, ocupada pelos países Aliados e a União Soviética volta ao quadro da competição olímpica em 1956 com a denominação Equipa Unida da Alemanha – uma equipa a representar uma nação já dividida. Os Jogos Olímpicos servirão também para legitimar a divisão territorial das duas alemanhas e respectiva disputa no quadro das nações com maior número de medalhas. E, em 1992 nos Jogos de Barcelona, aparece como sendo uma equipa propiciadora à idealização da nova Alemanha reunificada, após a queda do muro de Berlim.
A centralidade deste mega-evento desportivo leva a que mesmo países recém-formados, e nomeadamente aqueles que foram descolonizados, procurem no desporto, muitas vezes marca do país colonizador, e no espaço da competição olímpica a afirmação da sua identidade nacional na esfera internacional. A medalha de ouro dos 800 metros conquistada por Maria Mutola, nos Jogos de 2000, proporciona um ganho mediático a Moçambique que se estende no tempo, com o Herald Tribune a fazer uma reportagem denominada Candle Who Brings a Ray of Hope publicada em 22 de Janeiro de 2004, depois reproduzida nas televisões. E, deste modo, a própria nação dá conta de si própria, e dá conta de que faz parte da comunidade internacional.
Os media, em especial os directos de transmissão televisiva, são determinantes nesta relação entre competição desportiva identidade nacional: são as cadeias de televisão que pagam os direitos de transmissão e, claro, escolhem os momentos da competição que garantam o maximizar da audiência nacional, momentos quase sempre ligados com a participação de atletas desse mesmo país. A heroicidade do atleta tem assim um tributo territorial singularizado pela história de outros feitos que se acreditam fazer parte do “carácter nacional”. Casos como Catherine Freeman, a primeira arborígene a representar a Australia nos Jogos de 1992, e transporta a chama olímpica nos Jogos Olímpicos de Sydney de 2000, mostram as ambiguidades da construção da ideia desse mesmo “carácter nacional”, alertando para os problemas da não aceitação da pluralidade e, no caso, originando casos dramáticos de descriminação dos arborígenes.
A abertura a atletas profissionais, e a comercialização olímpica a partir de 1986, feita pelo COI a nível mundial, estreita relação entre as grandes marcas multinacionais. É o período dos grandes dos patrocínios e do merchandising dos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, suportados pela Coca Cola e pela CNN. Com os atletas campeões a surpreender quer pelas proezas como Magic Jonhson, quer pela surpresa da associação ao doping como Ben Johnson.
[1] Sobre a História da Omega nos Jogos Olímpicos ver http://www.antiquorum.com/html/vox/vox2003/officialsports/officialsports.htm, consultado em Janeiro de 2006
[2]«Les sportifs devraient être représentés avec un mètre à la main… et pas seulement une couronne de laurier.» Musil, Proses éparses. Paris: Seuil, 1989, p. 209.
[3] Ver a propósito Hargreaves (2000 ) e Horrocks (1995)
[4] cf. Centlivres, Fabre & Zonabend, 1998
[5] Ver a propósito do conceito “corpo projecto” (Shilling, 1993)
[6] Sobre biografias de maratonistas quenianos ver: http://www.nairobimarathon.com/tradition.htm
[7] A estas se junta mais duas (uma de ouro e outra de bronze) no boxe. Ver http://www.olympic.org/uk/games/past/index_uk.asp?OLGT=1&OLGY=1988 consultado em Março de 2006
[8] http://www.gnxp.com/MT2/archives/002505.html, consultado em Março 2006
[9] http://www.nationaudio.com/News/EastAfrican/06052002/Features/Magazine1.html consultado em Março 2006
[10] Realizado por Hugh Hudson em 1981.
[11] Em The Anatomy of Scientific Racism: Racialist Responses to Black Athletic Achievement, Miller (1998:130), refere ironicamente o seguinte: “It imagined that when blacks in Africa had been off running and hunting, the ancestors of white athletes were composing symphonies and building cathedrals, witch placed their descendents at a substantial disadvantage at the modern-day Olympics, which was supposed to showcase the strenuous elements within the European cultural tradition.”
[12] Sobre a biografia do atleta ver: Sérgio (1980: 37-42) e Fauria (1973: 109-120)
Heróis Olímpicos e o valor do centésimo de segundo (I)
Introdução
A plasticidade de significado dos Jogos Olímpicos dificulta a atribuição de sentido à heroicidade ali conquistada. O herói olímpico é então uma identidade moldada no interior de um conjunto vasto de significações que os próprios Jogos Olímpicos têm assumido ao longo do tempo. A heroicidade olímpica não é nem uma entidade acabada porque está sempre a ser processada, nem remete para uma unidade social fixa e unificada e, por isso mesmo, este texto propõe a análise do processo de construção/invenção da heroicidade no contexto estrito de três significados possíveis dos Jogos Olímpicos: tradição e modernidade, a celebração do corpo atlético, o recorde e o “ultrapassar de si”.
Este texto é um ensaio de reflexão sobre campeões e campeãs olímpicas, atletas cujo “ultrapassar dos limites” lhe dará o excesso biográfico que, de algum modo, tenta dar imortalidade à efemeridade que representou o momento da vitória. Não sendo um texto de biografias é, no entanto, um escrito que procura os seus fundamentos em obras, que para além de problematizar, enumeram e caracterizam os feitos atléticos dos campeões olímpicos, como a de Fura (1973) e a de Sérgio (1983), e em fontes oficiais como o site oficial do Comité Olímpico Internacional[1].
1. Tradição e modernidade: atletas cavalheiros e cosmopolitas
Tradição e modernidade são arquétipos que não existem como entidades discretas mas, de qualquer modo, aparecem como linhas orientadoras de Coubertin na criação dos Jogos Olímpicos. Coubertin pretendia uma competição animada por valores da tradição, propondo um “novo” patriotismo a partir do modelo desportivo moderno, tendo presente a ciência e a tecnologia como motores do progresso.
A primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos, em Atenas no ano de 1896, aparece na senda da realização de outros grandes eventos como o são as Exposições Universais. No fim do século XIX, início do século XX, estes grandes eventos são retratados por Hobsbawn[2] como fazendo parte do toolkit de invenção da tradição, num momento de construção da ideia de nação e de identidade nacional, e em resposta à necessidade de afirmação imperial de estados-nação europeus. E é no contexto das Exposições Universais de Paris e de St. Louis que se realizam a segunda e a terceira edição dos Jogos, que datam de 1900 e 1904 respectivamente. Em ambos os casos, a competição decorre sem recinto apropriado e acaba por ser um um evento marginal e secundário às Exposições. Os atletas que participam nas primeiras competições são maioritariamente jovens de colégios e universidades uma vez que o sport é ainda uma prática de lazer de distinção social.
Em Portugal, a figura do sportsman, para burgueses e aristocratas que incrementaram os desportos nas práticas de lazer, é uma demonstração de identidade de classe através da qual podiam estabelecer uma distinção horizontal com os seus congéneres europeus, pela adesão a práticas “modernas”, e uma distinção vertical com o "povo". A primeira representação portuguesa tem lugar na 5ª edição dos Jogos, realizados em Estocolmo em 1912, e é financiada pelos grupos privados que ajudaram a introduzir e a implementar a prática do sport. Dos seis representantes apenas Francisco Lázaro faz parte do “povo” e Armando Cortesão, um outro atleta que fez parte desta primeira comitiva, lembra-o na entrevista que deu a Romeu Correia:
(...) Era um grupo muito amigo. Mesmo o Lázaro que se afastava socialmente de nós, era um camarada esplêndido. Um rapaz muito simples, muito simpático. Ainda me lembro, quando, a bordo do paquete da Mala Real Inglesa, tínhamos de ir de smoking para a mesa, e ele, coitado, muito aflito a pôr o laço... E lá fui eu e o Fernando Correia ajudá-lo a fazer o laço do smoking. Mesmo à mesa, nós o aconselhávamos a comedir-se: “Não faça isso... não coma com a faca...” bom rapaz, o Lázaro! A sua morte marcou-nos para toda a vida.[3]
A participação de Francisco Lázaro inaugura a participação nacional nas provas de fundo do atletismo mas acaba em tragédia ao morrer na corrida da maratona[4]. Morre de insolação, morre envenenado, anunciam e especulam os jornais da época, morre em resultado de uma ignorância que devia espelhar um pouco “o povo” que o jovem representa. Lázaro ensebou-se antes do início da corrida para não transpirar, para não perder água e morreu sobre-aquecido. A morte do atleta torna-o um herói mítico[5]: nas suas biografias é evocada a morte de Philippides, o primeiro guerreiro-corredor que fez o trajecto entre Marathon (campo de batalha) e Atenas para anunciar aos atenienses a vitória sobre os invasores persas, no ano 490 a.C., gritando nenikamen (vencemos) para logo de seguida “entregar a alma”, este percurso foi considerado como sendo a distância limite da endurance humana (42,195 km , distância fixada nos Jogos Olímpicos de Londres em 1908 )[6]. Nos elogios póstumos discursa-se a origem modesta e pobre, a sua persistência nas corridas e o desejo de vencer; a excelência do corredor é discursada a partir de categorias extremas que em tudo a negariam: um carpinteiro, humilde e simples. Ser pobre e um bom sportsman é, nas primeiras décadas do século XX, como ser cego e bom atirador.
Para o sportsman a qualidade de campeão só tem razão de ser se imbuída de um espírito de fair play. A noção de fair play tenta retirar peso ao feito do campeão valorizando não a vitória deste mas o acto de competir e, mais ainda, de saber competir, e serve essencialmente para refrear o ímpeto de querer “ser o primeiro”. A própria noção de fair play sofreu algumas alterações de sentido antes de se apresentar como modelo de virtude ética[7]. O fair play, enquanto noção aliada ao jogo tem pouco mais de cem anos[8] e, segundo Mangan (1996), torna-se num instrumento de aplicação multifuncional: é um modelo de virtude do comportamento a ter numa competição mas também é um meio de promoção da ordem social e da harmonia internacional, é uma qualidade estimada no desportista e admirada nos campeões desportivos.
Uma das preocupações de Coubertin é o “comercialismo” desportivo e alertou para a vigilância que seria necessário manter de modo a que o desporto seguisse os princípios de nobreza e cavalheirismo, não fosse o campeão desportivo tornar-se um “gladiador pago”. Por definição a noção de campeão, enquanto qualificativo do atleta, é ambivalente no seu significado, uma vez que tanto pode ser elogioso quando se trata do “vencedor de uma prova desportiva, ou que alcança nela o melhor resultado”, como pejorativo (mercenário) quando se aplicava ao ofício de prestar serviços usando para o efeito capacidades atléticas.
Antes de tudo é necessário que o desporto mantenha as características de nobreza e cavalheirismo, que o distinguiram no passado, para continuar a fazer parte da educação dos povos de hoje, tal como serviu esse propósito nos tempos da Grécia antiga. A humanidade tem tendência a transformar o atleta olímpico em gladiador a soldo. Estas noções são incompatíveis (Coubertin, 1972: 47)[9].
Esta ambivalência, amador versus profissional, está presente na dualidade que caracteriza a génese e desenvolvimento do sport[10], e da actividade do sportsman e vai penalizar atletas ímpares como os americanos Jim Thorpe, Jesse Owens e Babe Didrikson, e o finlandês Paavo Nurmi.
Jim Thorpe, em 1912 nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, ganha o primeiro lugar no pentatlo e no decatlo. Um ano depois são-lhe retiradas as medalhas por ter sido profissional de beisebol[11], Thorpe devolve as medalhas mas os atletas classificados em segundo lugar em cada uma das provas recusam recebê-las. Nos Estados Unidos, Thorpe não esperava que, um ano depois de toda a “glória”, os compatriotas não abonassem em sua defesa: em 1912 é recebido como um “verdadeiro americano”, um ano depois tudo que de mais relevante é lembrado é o facto de ser descendente de índios[12]. Thorpe torna-se um dos jogadores mais famosos do futebol americano com direito a ser incluído no Passeio da Fama da respectiva Federação mas, apesar disso, só em 1982, vinte e nove anos depois da sua morte, as medalhas virão a ser devolvidas à sua filha e, em Maio de 1999, é considerado o atleta do século pela United States House of Representatives[13].
Jesse Owens, depois do feito nos Jogos de Berlim – “quatro medalhas de ouro, três recordes mundiais e nove recordes olímpicos (contando com os melhores do salto em comprimento)”[14] – vai tornar-se profissional e as suas capacidades atléticas vão ser postas à prova em diversas situações, como o correr, e ganhar, contra um cavalo[15].
A sua compatriota Babe Didrikson, também ela representante da equipa americana nos Jogos de Berlim de 1932, ganha duas medalhas de ouro, no lançamento de dardo e na corrida de 80 metros barreiras, e uma de prata no salto em altura. No fim das olímpiadas dedica-se ao basquetebol e ao beisebol profissionais para em 1935 se dedicar ao golfe e se tornar campeã da modalidade. Babe e Thorpe vão ser considerados os melhores atletas do meio século[16] nos Estados Unidos da América.
O finlandês Paavo Nurmi conquistou nove títulos olímpicos em três Olimpíadas (de 1920 a 1928), sendo um dos melhores atletas de fundo durante cerca de dez anos com 29 recordes do mundo, foi desclassificado pelo Comité Olímpico Internacional em 1932 por ter recebido ajudas financeiras na sua prática competitiva. Mas, em 1952, é ele quem vai levar a chama olímpica na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Helsínquia.
A cada nova realização dos Jogos, Coubertin assiste ao afinar da sua própria filosofia, nem sempre de acordo com os seus propósitos, não só o profissionalismo irá vingar como chegará mesmo a assistir à participação das mulheres nas competições desportivas. Coubertin acredita na modernidade do modelo desportivo anglo-americano e no que ele pode oferecer à comunidade enquanto repositório de valores e papeis sociais tradicionais de suporte ao desenvolvimento de uma nação moderna, de poder urbano e industrial.
Nos primeiros anos, a cada nova realização do evento, novos símbolos de afirmação do movimento olímpico vão sendo inventados: as medalhas de ouro, prata e bronze aparecem pela primeira vez em 1904 nos Jogos de St.Louis, em Estocolmo mostra-se a eficiência do modelo olímpico através do uso da medida electrónica dos tempos das provas, em 1920 nos Jogos de Antuérpia é introduzida a bandeira Olímpica, nos Jogos de Paris de 1924 aparece o mote olímpico “citius, altius, fortius” e é inventado o ritual de encerramento com as três bandeiras – a bandeira do Comité Olímpico, a bandeira do país anfitrião e a bandeira do país que sucede na realização da sessão seguinte, nos Jogos Olímpicos de Berlim aparece a tocha, um símbolo criado por Carl Dean de forma a estabelecer uma ligação entre a cidade mãe dos Jogos da antiguidade e a cidade anfitriã dos Jogos da era moderna[17]. A invenção/inovação dos primeiros Jogos prende-se sobretudo com a simbólica da sua (re)apresentação que, uma vez firmada em rituais muito precisos, é hoje pilar da tradição mas, ao longo dos anos, a inovação surge nas áreas das novas tecnologias associadas à transmissão televisiva dos Jogos[18]. A venda dos direitos de transmissão dos Jogos de Melbourne, em 1950, vai determinar uma nova relação entre o público e os próprios Jogos, e Roma (1960) marca o inicio do broadcast – todo o espectáculo é agora produzido em função do seu potencial audio-visual. Não obstante, serão sempre os feitos conseguidos pelos atletas que farão a promoção e divulgação dos próprios Jogos Olímpicos.
Em 1922 Jonh Weissmuller torna-se o primeiro nadador da história a baixar os 60 segundos nos 100 metros. Mas Weissmuller vai ficar conhecido pelo personagem que representou no cinema Tarzan. E é este facto que o torna um dos pioneiros da relação que vai passar a existir entre o desporto e o cinema; entre 1932 e 1975 Weissmuller participa em 31 filmes. Mas esta relação vai perdurar ao longo do século com Cantona e Rocheteau, com Michael Constantin e mais recentemente Michael Jordan. Na história do cinema ficaram também as proezas de Fausto Coppi e de Gino Bartali e a rivalidade entre Poulidor e Anquetil no ciclismo, as proezas do finlandês Paavo Nurmi e do checoslovaco Emil Zatopek, de Bob Beamon ou do australiano Herb Elliot, no atletismo.
Uma vez profissionais, e até estrelas de cinema, os campeões olímpicos são também vistos como agentes de fractura na medida em que perturbam o que parece ser a ordem lógica da mobilidade social. Estes heróis questionam, agora, uma suposta ordem do mundo uma vez que a sua ascensão social, com uma projecção financeira considerada muitas vezes desmedida, faz estremecer as hierarquias tradicionais pre-estabelecidas. Em todo o caso, o que perturba não é a excelência dos atletas mas a perplexidade causada pela sua ascensão, dados os constrangimentos vulgarmente associados à mobilidade social ascendente, dada a falta de estudos e a baixa condição social de origem que caracteriza muitos dos atletas. A ascensão social dos campeões olímpicos é, muitas vezes, tratada como uma afronta quando se associa a competição desportiva a um mero acto de força física. Neste caso o herói olímpico é pensado segundo o mito de Hércules[19], i.e., uma figura “forte em músculo e fraco de espírito”. Mas, por outro lado, são também os atributos de precariedade que em tudo parecem contrariar o caminho para a notoriedade que ampliam a excelência do feito; exemplo disso é o recordista olímpico de saltos nos Jogos Olímpicos de Londres de 1908, o norte-americano Ray Ewry, que havia sido paralítico em criança[20].
A modernidade do projecto dos Jogos Olímpicos associa-se também à afirmação da competição desportiva no plano do desenvolvimento tecnológico e, devido à exigência de uniformidade de condições de prática dos vários desportos, a competição internacional vai contribuir de forma eficaz para a universalidade de aplicação do sistema de medida métrico apesar da resistência de muitos atletas anglo-americanos. “Para um inglês, em 1908, o valor da milha, grande distância clássica anglo-saxónica toma o primado dos 1500 metros. O recorde da milha tem mais importância do que uma vitória nos 1500 metros numa olímpiada” (Oppenheim, 1961: 40)
O recorde da milha, nas duas primeiras décadas do século, tem maior valor simbólico para os atletas do que os 1500 metros dos Jogos Olímpicos. Em Julho de 1908 a recém formada Federação Internacional de Natação Amadora (FINA) tem três objectivos a cumprir: 1. estabelecer as regras das provas de natação, Jogos Olímpicos e meetings internacionais; 2. controlar se as performances propostas como recordes do mundo são estabelecidas em conformidade com o regulamento e fazer a lista dos recordes; 3. organizar as provas de natação dos Jogos Olímpicos. A escolha das distâncias aceites pela FINA para os Jogos Olímpicos constituem, como nas corridas de atletismo, o compromisso possível entre o sistema inglês e o sistema métrico (Oppenheim, 1961: 44):
Medidas inglesas Medida equivalente Compromisso no Sistema métrico
(em metros)
100 jardas 91,43 m 100 m
1/8 milha 201,16 m 200 m
1/4 milha 402,32 m 400 m
1/2 milha 804,65 m 800 m
1 milha (1760 jardas) 1609, 32 m 1500 m
Tabela 1: Tabela de equivalência das medidas inglesas e medidas compromisso no sistema métrico, usadas na competição desportiva, retirada de Oppenheim (1961: 44)
Para o desenvolvimento e progresso das modalidades desportivas conclui-se que seria necessário unidades de medida standard. A natação é um dos nove desportos que figuram no programa dos primeiros Jogos Olímpicos, Atenas de 1896, e é realizada na Baía de Zéa, perto de Pireus. Em 1908, o maior acontecimento da história da natação vai ser a piscina de 100 metros de comprimento construída para os Jogos de Londres. A competição entre nações contribui para anular a variedade de condições de prática de cada desporto, criando as condições necessárias ao reconhecimento da universalidade no domínio da heroicidade ali conquistada.
[1] http://www.olympic.org/uk/athletes
[2] Hobsbawn & Ranger (eds.) (1983) The Invention of Tradition. Cambridge: Cambridge University Press.
[3] Entrevista dada por Armando Cortesão a Romeu Correia e publicada em Correia R. (1988). Portugueses na V Olimpíada. Lisboa: Editorial Notícias, p. 86. Grupo de representantes portugueses na V Olimpíada: Armando Cortesão, finalista do Instituto Superior de Agronomia, António Stromp, estudante de medicina, Fernando Correia, empregado superior do Montepio Geral, Joaquim Vital, empregado do Comércio e Lázaro, carpinteiro.
[4] "O team português que foi a Estocolmo volta dizimado pela morte. Francisco Lázaro, aquele heróico e valente rapaz que tantas vezes aplaudimos e em quem depositámos as melhores esperanças de que saberia defender com o brio indomável, esta forte e destemida raça portuguesa, lá ficou dormindo o sono eterno (...).Não tinha ele uma noção rigorosa -longe disso - dos métodos de treino, nem das medidas higiénicas que têm de adoptar os atletas quando pretendem pôr em prática altos empreendimentos. E o que Lázaro pretendia era nem mais nem menos do que atacar o recorde da hora pedestre. (...) Na pureza ingénua de modesto filho do povo, Lázaro era um "sportsman", no que a palavra tem de mais perfeito e de mais sincero; simples operário, ele tinha a grandeza da alma de um ianque, curvando-se resignado perante a própria derrota, não deprimindo e rebaixando os vencidos. (...) O atleta da minha eleição caiu para sempre, morreu; não volta coberto de louros (...) Mas na sua queda, na queda do herói não foi arrastada a bandeira da Pátria, essa ergueu-se alta e tremula ovante como a flâmula italiana de Dorando Pietro na Olímpiada de Londres e como a bandeira helénica solta ao vento, quando o soldado de Maratona caía exâmine ás portas de Atenas depois de anunciar a vitória sobre os persas." Jornal A Luta, 16 de Julho de 1912.
[5] Em 1968 é instituído o Troféu Francisco Lázaro para premiar o vencedor da Maratona Nacional.
[6] Datas retiradas do site http://www.herodote.net/histoire09130.htm, consultado em Fevereiro de 2006
[7] The genesis of ‘fair play’ lay, therefore, not in nobility but in savagery. Fair play was not the instinctive behaviour of gentlemen but the acquired behaviour of roughnecks, albeit of some social standing. It was cultivated carefully as a practical tool. It was a means of ensuring controlled confrontation in physical struggle on the new playing fields. Around the concept of fair play a mythology grew. It was required. The image of the schools had to be redeemed. Evangelicalism had sobered some of the upper classes; survival now demanded a reciprocity in the upper-class schools. A necessity now became a virtue. Mangan, J.A., Bolton, Richard (1996) «Heroes of a European Past» in Mangan, J.A., Bolton, Richard, Lanfranchi, Pierre (eds.) European Heroes, myth, identity, sport. London: Franck Cass. P. 31.
[8] Ver Laberge, Suzanne Harvey , Jean (1995) «Présentation». Sociologie et Sociétés – Le Sport. Montreal: Les Présses de l’Université de Montréal. Vol. XXVII, 1. P. 7. Segundo a autora, o fair play surge no desporto moderno, no fim do séc. XVIII, em Inglaterra, nas public Schools reservado aos filhos das famílias aristocráticas e à «grande burguesia» britânicas. O desporto designa então um conjunto de formas específicas de actividades físicas regulamentadas e instituídas pelos dirigentes escolares que organizam reencontros competitivos; estas práticas são solitárias de uma ética aristocrática valorizando a coragem, o espirito cavalheiresco, a virilidade e a vontade de vencer segundo regras.
[9] Tradução livre
[10] Ver sobre a génese do desporto: Pocciello (1999), Thomas (1993) e a Enciclopédia EINAUDI (1994, nº 30, p. 46)
[11] “Em Janeiro de 1913 um periódico norte-americano revelou que o duplo campeão olímpic havia sido profissional no verão de 1909, ganhando de 80 a 100 dólares por mês” Fauria (1973: 43).
[12] Ver a propósito Rubinfeld, Mark (2006) “The mythical Jim Thorpe: Representing the Twentieth Century American Indian”. International Journal of the History of Sport. Vol. 23, nº2, March, 167-189
[13] James Francis Thorpe designado atleta do século por United States House of Representatives. Ver http//alphacdc.com/necona/athlete_of_the_century.html.
[14] Ver mais pormenores na obra de Fauria (1973: 80)
[15] Fauria (1973: 81)
[16] Fauria (1973: 69). O autor não deixa de dar juízo de valor sobre estes atletas que deixam de ser amadores e passam a receber honorários em troca das suas prestações.
[17] Sobre a perspectiva alemã, baseada na idealização da Grécia antiga, nos Jogos de 1936 ver Rodriguez (
[18] Ver Guttman (1992) e MacAllon (1981)
[19] Ver J. Chevalier e A. Gheerbrant, Diccionário dos Símbolos. Lisboa: Teorema. Sobre Héracles (Hércules): “(...) Mas as imagens que se desprendem de lendas bastante ricas mostram um personagem oscilante entre o atleta de feira e Dom Quixote. (...) Se considerarmos como sendo de ordem física e moral, por uma transposição de obstáculos que ele vence, Héracles, seria o representante idealizado da força combativa; o símbolo da vitória (e da dificuldade da vitória) da alma humana sobre as suas fraquezas (DIES, 216). (...) No fim da sua evolução mitológica digna de nota, graças a Hera, que nunca tinha deixado de o perseguir, Héracles encarna o ideal viril helénico... algo que só pertence ao céu, não existe ser vivente ideal sobre a terra e só na deusa da eterna juventude é que encontra uma companheira condigna (O. Kern). (...) O Hércules céltico simboliza unicamente força .(sic).”(p. 364)
[20] Ver a propósito Juan Fauria (1973) Heroes Olimpicos. Madrid: INEF, p.:31. .
A plasticidade de significado dos Jogos Olímpicos dificulta a atribuição de sentido à heroicidade ali conquistada. O herói olímpico é então uma identidade moldada no interior de um conjunto vasto de significações que os próprios Jogos Olímpicos têm assumido ao longo do tempo. A heroicidade olímpica não é nem uma entidade acabada porque está sempre a ser processada, nem remete para uma unidade social fixa e unificada e, por isso mesmo, este texto propõe a análise do processo de construção/invenção da heroicidade no contexto estrito de três significados possíveis dos Jogos Olímpicos: tradição e modernidade, a celebração do corpo atlético, o recorde e o “ultrapassar de si”.
Este texto é um ensaio de reflexão sobre campeões e campeãs olímpicas, atletas cujo “ultrapassar dos limites” lhe dará o excesso biográfico que, de algum modo, tenta dar imortalidade à efemeridade que representou o momento da vitória. Não sendo um texto de biografias é, no entanto, um escrito que procura os seus fundamentos em obras, que para além de problematizar, enumeram e caracterizam os feitos atléticos dos campeões olímpicos, como a de Fura (1973) e a de Sérgio (1983), e em fontes oficiais como o site oficial do Comité Olímpico Internacional[1].
1. Tradição e modernidade: atletas cavalheiros e cosmopolitas
Tradição e modernidade são arquétipos que não existem como entidades discretas mas, de qualquer modo, aparecem como linhas orientadoras de Coubertin na criação dos Jogos Olímpicos. Coubertin pretendia uma competição animada por valores da tradição, propondo um “novo” patriotismo a partir do modelo desportivo moderno, tendo presente a ciência e a tecnologia como motores do progresso.
A primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos, em Atenas no ano de 1896, aparece na senda da realização de outros grandes eventos como o são as Exposições Universais. No fim do século XIX, início do século XX, estes grandes eventos são retratados por Hobsbawn[2] como fazendo parte do toolkit de invenção da tradição, num momento de construção da ideia de nação e de identidade nacional, e em resposta à necessidade de afirmação imperial de estados-nação europeus. E é no contexto das Exposições Universais de Paris e de St. Louis que se realizam a segunda e a terceira edição dos Jogos, que datam de 1900 e 1904 respectivamente. Em ambos os casos, a competição decorre sem recinto apropriado e acaba por ser um um evento marginal e secundário às Exposições. Os atletas que participam nas primeiras competições são maioritariamente jovens de colégios e universidades uma vez que o sport é ainda uma prática de lazer de distinção social.
Em Portugal, a figura do sportsman, para burgueses e aristocratas que incrementaram os desportos nas práticas de lazer, é uma demonstração de identidade de classe através da qual podiam estabelecer uma distinção horizontal com os seus congéneres europeus, pela adesão a práticas “modernas”, e uma distinção vertical com o "povo". A primeira representação portuguesa tem lugar na 5ª edição dos Jogos, realizados em Estocolmo em 1912, e é financiada pelos grupos privados que ajudaram a introduzir e a implementar a prática do sport. Dos seis representantes apenas Francisco Lázaro faz parte do “povo” e Armando Cortesão, um outro atleta que fez parte desta primeira comitiva, lembra-o na entrevista que deu a Romeu Correia:
(...) Era um grupo muito amigo. Mesmo o Lázaro que se afastava socialmente de nós, era um camarada esplêndido. Um rapaz muito simples, muito simpático. Ainda me lembro, quando, a bordo do paquete da Mala Real Inglesa, tínhamos de ir de smoking para a mesa, e ele, coitado, muito aflito a pôr o laço... E lá fui eu e o Fernando Correia ajudá-lo a fazer o laço do smoking. Mesmo à mesa, nós o aconselhávamos a comedir-se: “Não faça isso... não coma com a faca...” bom rapaz, o Lázaro! A sua morte marcou-nos para toda a vida.[3]
A participação de Francisco Lázaro inaugura a participação nacional nas provas de fundo do atletismo mas acaba em tragédia ao morrer na corrida da maratona[4]. Morre de insolação, morre envenenado, anunciam e especulam os jornais da época, morre em resultado de uma ignorância que devia espelhar um pouco “o povo” que o jovem representa. Lázaro ensebou-se antes do início da corrida para não transpirar, para não perder água e morreu sobre-aquecido. A morte do atleta torna-o um herói mítico[5]: nas suas biografias é evocada a morte de Philippides, o primeiro guerreiro-corredor que fez o trajecto entre Marathon (campo de batalha) e Atenas para anunciar aos atenienses a vitória sobre os invasores persas, no ano 490 a.C., gritando nenikamen (vencemos) para logo de seguida “entregar a alma”, este percurso foi considerado como sendo a distância limite da endurance humana (42,195 km , distância fixada nos Jogos Olímpicos de Londres em 1908 )[6]. Nos elogios póstumos discursa-se a origem modesta e pobre, a sua persistência nas corridas e o desejo de vencer; a excelência do corredor é discursada a partir de categorias extremas que em tudo a negariam: um carpinteiro, humilde e simples. Ser pobre e um bom sportsman é, nas primeiras décadas do século XX, como ser cego e bom atirador.
Para o sportsman a qualidade de campeão só tem razão de ser se imbuída de um espírito de fair play. A noção de fair play tenta retirar peso ao feito do campeão valorizando não a vitória deste mas o acto de competir e, mais ainda, de saber competir, e serve essencialmente para refrear o ímpeto de querer “ser o primeiro”. A própria noção de fair play sofreu algumas alterações de sentido antes de se apresentar como modelo de virtude ética[7]. O fair play, enquanto noção aliada ao jogo tem pouco mais de cem anos[8] e, segundo Mangan (1996), torna-se num instrumento de aplicação multifuncional: é um modelo de virtude do comportamento a ter numa competição mas também é um meio de promoção da ordem social e da harmonia internacional, é uma qualidade estimada no desportista e admirada nos campeões desportivos.
Uma das preocupações de Coubertin é o “comercialismo” desportivo e alertou para a vigilância que seria necessário manter de modo a que o desporto seguisse os princípios de nobreza e cavalheirismo, não fosse o campeão desportivo tornar-se um “gladiador pago”. Por definição a noção de campeão, enquanto qualificativo do atleta, é ambivalente no seu significado, uma vez que tanto pode ser elogioso quando se trata do “vencedor de uma prova desportiva, ou que alcança nela o melhor resultado”, como pejorativo (mercenário) quando se aplicava ao ofício de prestar serviços usando para o efeito capacidades atléticas.
Antes de tudo é necessário que o desporto mantenha as características de nobreza e cavalheirismo, que o distinguiram no passado, para continuar a fazer parte da educação dos povos de hoje, tal como serviu esse propósito nos tempos da Grécia antiga. A humanidade tem tendência a transformar o atleta olímpico em gladiador a soldo. Estas noções são incompatíveis (Coubertin, 1972: 47)[9].
Esta ambivalência, amador versus profissional, está presente na dualidade que caracteriza a génese e desenvolvimento do sport[10], e da actividade do sportsman e vai penalizar atletas ímpares como os americanos Jim Thorpe, Jesse Owens e Babe Didrikson, e o finlandês Paavo Nurmi.
Jim Thorpe, em 1912 nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, ganha o primeiro lugar no pentatlo e no decatlo. Um ano depois são-lhe retiradas as medalhas por ter sido profissional de beisebol[11], Thorpe devolve as medalhas mas os atletas classificados em segundo lugar em cada uma das provas recusam recebê-las. Nos Estados Unidos, Thorpe não esperava que, um ano depois de toda a “glória”, os compatriotas não abonassem em sua defesa: em 1912 é recebido como um “verdadeiro americano”, um ano depois tudo que de mais relevante é lembrado é o facto de ser descendente de índios[12]. Thorpe torna-se um dos jogadores mais famosos do futebol americano com direito a ser incluído no Passeio da Fama da respectiva Federação mas, apesar disso, só em 1982, vinte e nove anos depois da sua morte, as medalhas virão a ser devolvidas à sua filha e, em Maio de 1999, é considerado o atleta do século pela United States House of Representatives[13].
Jesse Owens, depois do feito nos Jogos de Berlim – “quatro medalhas de ouro, três recordes mundiais e nove recordes olímpicos (contando com os melhores do salto em comprimento)”[14] – vai tornar-se profissional e as suas capacidades atléticas vão ser postas à prova em diversas situações, como o correr, e ganhar, contra um cavalo[15].
A sua compatriota Babe Didrikson, também ela representante da equipa americana nos Jogos de Berlim de 1932, ganha duas medalhas de ouro, no lançamento de dardo e na corrida de 80 metros barreiras, e uma de prata no salto em altura. No fim das olímpiadas dedica-se ao basquetebol e ao beisebol profissionais para em 1935 se dedicar ao golfe e se tornar campeã da modalidade. Babe e Thorpe vão ser considerados os melhores atletas do meio século[16] nos Estados Unidos da América.
O finlandês Paavo Nurmi conquistou nove títulos olímpicos em três Olimpíadas (de 1920 a 1928), sendo um dos melhores atletas de fundo durante cerca de dez anos com 29 recordes do mundo, foi desclassificado pelo Comité Olímpico Internacional em 1932 por ter recebido ajudas financeiras na sua prática competitiva. Mas, em 1952, é ele quem vai levar a chama olímpica na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Helsínquia.
A cada nova realização dos Jogos, Coubertin assiste ao afinar da sua própria filosofia, nem sempre de acordo com os seus propósitos, não só o profissionalismo irá vingar como chegará mesmo a assistir à participação das mulheres nas competições desportivas. Coubertin acredita na modernidade do modelo desportivo anglo-americano e no que ele pode oferecer à comunidade enquanto repositório de valores e papeis sociais tradicionais de suporte ao desenvolvimento de uma nação moderna, de poder urbano e industrial.
Nos primeiros anos, a cada nova realização do evento, novos símbolos de afirmação do movimento olímpico vão sendo inventados: as medalhas de ouro, prata e bronze aparecem pela primeira vez em 1904 nos Jogos de St.Louis, em Estocolmo mostra-se a eficiência do modelo olímpico através do uso da medida electrónica dos tempos das provas, em 1920 nos Jogos de Antuérpia é introduzida a bandeira Olímpica, nos Jogos de Paris de 1924 aparece o mote olímpico “citius, altius, fortius” e é inventado o ritual de encerramento com as três bandeiras – a bandeira do Comité Olímpico, a bandeira do país anfitrião e a bandeira do país que sucede na realização da sessão seguinte, nos Jogos Olímpicos de Berlim aparece a tocha, um símbolo criado por Carl Dean de forma a estabelecer uma ligação entre a cidade mãe dos Jogos da antiguidade e a cidade anfitriã dos Jogos da era moderna[17]. A invenção/inovação dos primeiros Jogos prende-se sobretudo com a simbólica da sua (re)apresentação que, uma vez firmada em rituais muito precisos, é hoje pilar da tradição mas, ao longo dos anos, a inovação surge nas áreas das novas tecnologias associadas à transmissão televisiva dos Jogos[18]. A venda dos direitos de transmissão dos Jogos de Melbourne, em 1950, vai determinar uma nova relação entre o público e os próprios Jogos, e Roma (1960) marca o inicio do broadcast – todo o espectáculo é agora produzido em função do seu potencial audio-visual. Não obstante, serão sempre os feitos conseguidos pelos atletas que farão a promoção e divulgação dos próprios Jogos Olímpicos.
Em 1922 Jonh Weissmuller torna-se o primeiro nadador da história a baixar os 60 segundos nos 100 metros. Mas Weissmuller vai ficar conhecido pelo personagem que representou no cinema Tarzan. E é este facto que o torna um dos pioneiros da relação que vai passar a existir entre o desporto e o cinema; entre 1932 e 1975 Weissmuller participa em 31 filmes. Mas esta relação vai perdurar ao longo do século com Cantona e Rocheteau, com Michael Constantin e mais recentemente Michael Jordan. Na história do cinema ficaram também as proezas de Fausto Coppi e de Gino Bartali e a rivalidade entre Poulidor e Anquetil no ciclismo, as proezas do finlandês Paavo Nurmi e do checoslovaco Emil Zatopek, de Bob Beamon ou do australiano Herb Elliot, no atletismo.
Uma vez profissionais, e até estrelas de cinema, os campeões olímpicos são também vistos como agentes de fractura na medida em que perturbam o que parece ser a ordem lógica da mobilidade social. Estes heróis questionam, agora, uma suposta ordem do mundo uma vez que a sua ascensão social, com uma projecção financeira considerada muitas vezes desmedida, faz estremecer as hierarquias tradicionais pre-estabelecidas. Em todo o caso, o que perturba não é a excelência dos atletas mas a perplexidade causada pela sua ascensão, dados os constrangimentos vulgarmente associados à mobilidade social ascendente, dada a falta de estudos e a baixa condição social de origem que caracteriza muitos dos atletas. A ascensão social dos campeões olímpicos é, muitas vezes, tratada como uma afronta quando se associa a competição desportiva a um mero acto de força física. Neste caso o herói olímpico é pensado segundo o mito de Hércules[19], i.e., uma figura “forte em músculo e fraco de espírito”. Mas, por outro lado, são também os atributos de precariedade que em tudo parecem contrariar o caminho para a notoriedade que ampliam a excelência do feito; exemplo disso é o recordista olímpico de saltos nos Jogos Olímpicos de Londres de 1908, o norte-americano Ray Ewry, que havia sido paralítico em criança[20].
A modernidade do projecto dos Jogos Olímpicos associa-se também à afirmação da competição desportiva no plano do desenvolvimento tecnológico e, devido à exigência de uniformidade de condições de prática dos vários desportos, a competição internacional vai contribuir de forma eficaz para a universalidade de aplicação do sistema de medida métrico apesar da resistência de muitos atletas anglo-americanos. “Para um inglês, em 1908, o valor da milha, grande distância clássica anglo-saxónica toma o primado dos 1500 metros. O recorde da milha tem mais importância do que uma vitória nos 1500 metros numa olímpiada” (Oppenheim, 1961: 40)
O recorde da milha, nas duas primeiras décadas do século, tem maior valor simbólico para os atletas do que os 1500 metros dos Jogos Olímpicos. Em Julho de 1908 a recém formada Federação Internacional de Natação Amadora (FINA) tem três objectivos a cumprir: 1. estabelecer as regras das provas de natação, Jogos Olímpicos e meetings internacionais; 2. controlar se as performances propostas como recordes do mundo são estabelecidas em conformidade com o regulamento e fazer a lista dos recordes; 3. organizar as provas de natação dos Jogos Olímpicos. A escolha das distâncias aceites pela FINA para os Jogos Olímpicos constituem, como nas corridas de atletismo, o compromisso possível entre o sistema inglês e o sistema métrico (Oppenheim, 1961: 44):
Medidas inglesas Medida equivalente Compromisso no Sistema métrico
(em metros)
100 jardas 91,43 m 100 m
1/8 milha 201,16 m 200 m
1/4 milha 402,32 m 400 m
1/2 milha 804,65 m 800 m
1 milha (1760 jardas) 1609, 32 m 1500 m
Tabela 1: Tabela de equivalência das medidas inglesas e medidas compromisso no sistema métrico, usadas na competição desportiva, retirada de Oppenheim (1961: 44)
Para o desenvolvimento e progresso das modalidades desportivas conclui-se que seria necessário unidades de medida standard. A natação é um dos nove desportos que figuram no programa dos primeiros Jogos Olímpicos, Atenas de 1896, e é realizada na Baía de Zéa, perto de Pireus. Em 1908, o maior acontecimento da história da natação vai ser a piscina de 100 metros de comprimento construída para os Jogos de Londres. A competição entre nações contribui para anular a variedade de condições de prática de cada desporto, criando as condições necessárias ao reconhecimento da universalidade no domínio da heroicidade ali conquistada.
[1] http://www.olympic.org/uk/athletes
[2] Hobsbawn & Ranger (eds.) (1983) The Invention of Tradition. Cambridge: Cambridge University Press.
[3] Entrevista dada por Armando Cortesão a Romeu Correia e publicada em Correia R. (1988). Portugueses na V Olimpíada. Lisboa: Editorial Notícias, p. 86. Grupo de representantes portugueses na V Olimpíada: Armando Cortesão, finalista do Instituto Superior de Agronomia, António Stromp, estudante de medicina, Fernando Correia, empregado superior do Montepio Geral, Joaquim Vital, empregado do Comércio e Lázaro, carpinteiro.
[4] "O team português que foi a Estocolmo volta dizimado pela morte. Francisco Lázaro, aquele heróico e valente rapaz que tantas vezes aplaudimos e em quem depositámos as melhores esperanças de que saberia defender com o brio indomável, esta forte e destemida raça portuguesa, lá ficou dormindo o sono eterno (...).Não tinha ele uma noção rigorosa -longe disso - dos métodos de treino, nem das medidas higiénicas que têm de adoptar os atletas quando pretendem pôr em prática altos empreendimentos. E o que Lázaro pretendia era nem mais nem menos do que atacar o recorde da hora pedestre. (...) Na pureza ingénua de modesto filho do povo, Lázaro era um "sportsman", no que a palavra tem de mais perfeito e de mais sincero; simples operário, ele tinha a grandeza da alma de um ianque, curvando-se resignado perante a própria derrota, não deprimindo e rebaixando os vencidos. (...) O atleta da minha eleição caiu para sempre, morreu; não volta coberto de louros (...) Mas na sua queda, na queda do herói não foi arrastada a bandeira da Pátria, essa ergueu-se alta e tremula ovante como a flâmula italiana de Dorando Pietro na Olímpiada de Londres e como a bandeira helénica solta ao vento, quando o soldado de Maratona caía exâmine ás portas de Atenas depois de anunciar a vitória sobre os persas." Jornal A Luta, 16 de Julho de 1912.
[5] Em 1968 é instituído o Troféu Francisco Lázaro para premiar o vencedor da Maratona Nacional.
[6] Datas retiradas do site http://www.herodote.net/histoire09130.htm, consultado em Fevereiro de 2006
[7] The genesis of ‘fair play’ lay, therefore, not in nobility but in savagery. Fair play was not the instinctive behaviour of gentlemen but the acquired behaviour of roughnecks, albeit of some social standing. It was cultivated carefully as a practical tool. It was a means of ensuring controlled confrontation in physical struggle on the new playing fields. Around the concept of fair play a mythology grew. It was required. The image of the schools had to be redeemed. Evangelicalism had sobered some of the upper classes; survival now demanded a reciprocity in the upper-class schools. A necessity now became a virtue. Mangan, J.A., Bolton, Richard (1996) «Heroes of a European Past» in Mangan, J.A., Bolton, Richard, Lanfranchi, Pierre (eds.) European Heroes, myth, identity, sport. London: Franck Cass. P. 31.
[8] Ver Laberge, Suzanne Harvey , Jean (1995) «Présentation». Sociologie et Sociétés – Le Sport. Montreal: Les Présses de l’Université de Montréal. Vol. XXVII, 1. P. 7. Segundo a autora, o fair play surge no desporto moderno, no fim do séc. XVIII, em Inglaterra, nas public Schools reservado aos filhos das famílias aristocráticas e à «grande burguesia» britânicas. O desporto designa então um conjunto de formas específicas de actividades físicas regulamentadas e instituídas pelos dirigentes escolares que organizam reencontros competitivos; estas práticas são solitárias de uma ética aristocrática valorizando a coragem, o espirito cavalheiresco, a virilidade e a vontade de vencer segundo regras.
[9] Tradução livre
[10] Ver sobre a génese do desporto: Pocciello (1999), Thomas (1993) e a Enciclopédia EINAUDI (1994, nº 30, p. 46)
[11] “Em Janeiro de 1913 um periódico norte-americano revelou que o duplo campeão olímpic havia sido profissional no verão de 1909, ganhando de 80 a 100 dólares por mês” Fauria (1973: 43).
[12] Ver a propósito Rubinfeld, Mark (2006) “The mythical Jim Thorpe: Representing the Twentieth Century American Indian”. International Journal of the History of Sport. Vol. 23, nº2, March, 167-189
[13] James Francis Thorpe designado atleta do século por United States House of Representatives. Ver http//alphacdc.com/necona/athlete_of_the_century.html.
[14] Ver mais pormenores na obra de Fauria (1973: 80)
[15] Fauria (1973: 81)
[16] Fauria (1973: 69). O autor não deixa de dar juízo de valor sobre estes atletas que deixam de ser amadores e passam a receber honorários em troca das suas prestações.
[17] Sobre a perspectiva alemã, baseada na idealização da Grécia antiga, nos Jogos de 1936 ver Rodriguez (
[18] Ver Guttman (1992) e MacAllon (1981)
[19] Ver J. Chevalier e A. Gheerbrant, Diccionário dos Símbolos. Lisboa: Teorema. Sobre Héracles (Hércules): “(...) Mas as imagens que se desprendem de lendas bastante ricas mostram um personagem oscilante entre o atleta de feira e Dom Quixote. (...) Se considerarmos como sendo de ordem física e moral, por uma transposição de obstáculos que ele vence, Héracles, seria o representante idealizado da força combativa; o símbolo da vitória (e da dificuldade da vitória) da alma humana sobre as suas fraquezas (DIES, 216). (...) No fim da sua evolução mitológica digna de nota, graças a Hera, que nunca tinha deixado de o perseguir, Héracles encarna o ideal viril helénico... algo que só pertence ao céu, não existe ser vivente ideal sobre a terra e só na deusa da eterna juventude é que encontra uma companheira condigna (O. Kern). (...) O Hércules céltico simboliza unicamente força .(sic).”(p. 364)
[20] Ver a propósito Juan Fauria (1973) Heroes Olimpicos. Madrid: INEF, p.:31. .
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